quarta-feira, 21 de julho de 2010

As plantas da infância

Jaime contornou o tronco da velha figueira, sentia-a na pele, os seus sentidos pareciam estar mais apurados, quase sentia a seiva que após tantos anos de ausência continuava a circular e a transformar o ar puro da serrania  em ar ainda mais puro. Jaime sentia-se mais velho e frágil, a figueira mais majestosa e colossal continuava ali como se estivesse à espera do seu regresso.
Afinal Jaime não encontrara a paz e o conforto naquela viagem. Sentia-se desfasado daqueles lugares que ele tão bem conhecia mas com os quais ele já não se identificava. Só a figueira espelhava o seu penoso trilho pela vida, tinha sido a sua sombra, por vezes o seu sustento, quando o corpo elanguescido  depois de descer a serra se regalava com o figo lampo,branco e sumarento. Tinha sido o seu mundo secreto onde se escondia dos irmãos ou do pai castigador.


A imagem do pai Francisco surgiu num lampejo quase desesperado. As alvoradas tinham assistido às suas jornadas com rumo à serra na companhia do pai.A escola já pertencia ao passado, era tempo de provar os frios intensos, o medo ancestral do Lobo que era presença constante nos sonhos em sobressalto,tendo por única protecção peles de ovelha e giestas, aquecidos pelo gado, no meio do nada e de tanta grandeza.Não havia espaço para a poesia mas na memória sempre ficam os sons e os odores estonteantes dos campos.Sons de pífaros toscamente executados enquanto deixavam o tempo escoar pela serra. Sons de notas dolorosas que o vento, carpindo pelas mimosas,levava para bem longe ecoando pelas Beiradas, cobertas pelo hibisco, pela giesta e a carqueja que avivava  os montados de pinheiros bravos.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A força do cálice fecundo

A vida decorria sem sobressaltos para esta família da Beira Baixa, movida pela vontade,  de sobreviver às agruras da miséria rural. Miséria social e cultural que deixava nítidas feridas no coração e no modo como ao longo da vida expressariam os sentimentos. Corações solitários mas transbordantes de amor nunca revelado. Violências domésticas que a frágil Ermelinda  tentava em vão controlar. Quantas vezes a sua carne provava a mão progenitora que, impiedosa, castigava os filhos. Como boa portuguesa aceitava tolerante estas marcas de despotismo, de temperamental desejo de comando. O mundo de Ermelinda tinha como limite a sua descendência e a sua débil saúde.Atormentada pelas sucessivas crises de bronquite e pelos partos numerosos, esta mulher era a grandeza decadente personificada. Grandeza na sua passiva aceitação do sofrimento, quando qual leoa se lançava entre os filhos e o braço castigador.Decadência na forma fatalista de aceitar esse sofrimento, sem um única vez sentir o desejo de gritar o seu protesto, sem sonhos de mudança, presa no seu nicho de mulher mãe, mulher trabalhadora, mulher crente e temente a Deus...

Prisioneiro da serra



Se o tempo piorava e o céu desabava sobre a terra, não havia tempo para regressar a salvo ao Ameal. Um sobreiro  ou uma cabana de giesta serviriam de abrigo ao pastor. A cadela, companheira fiel e o gado ali ficavam, os dorsos frementes oferecidos ao vento, ao frio e por vezes à neve. A vida pairava expectante, os segundos eram o ritmo do coração apertado pelo pavor, os minutos eram o cambalear das cabeças molhadas dos animais...as horas eram o drama das agruras e dificuldades da vida  visitados e revisitados pela mente meio adormecida. Estes retiros forçados da vida cultivavam caracteres sofridos e melancólicos, propensos a um lirismo exacerbado e apaixonado.A flauta de cana fazia-se ouvir pela serra como um grito ou um suspiro de dor.








A vingança serve-se com leite

Aos nove anos a escola ficara para trás há muito! Os rebanhos eram a única companhia de Jaime. Ainda o sol não afagava as lojas que abrigavam os animais felpudos e já o garoto reunia o gado para se pôr a caminho, rumo ao Vale da Cabra,percorria carreiros ladeados por manchas de giesta, mas lá bem alto frias e negras pedras pareciam serem obra do homem. Eram polidas, lisas e brilhavam ao sol nascente.Sempre atento aos fugitivos e mais afoitos cabrititos, o pequeno pastor atravessava o campo, passando rente à propriedade do "vinte e cinco", alcunha do vizinho mais próximo.Este vizinho zelava religiosamente pelo que era seu, mas raposa velha contornava toda a moral que dominava as relações no mundo rural e subtilizava descaradamente o mato do Francisco Ferreira.Claro que em defesa dos bons costumes um dia o "vinte e cinco" foi agredido selvaticamente com uma lata de leite. Não ganhou para o susto e aprendeu a lição.

O Homem Beirão

A aparente pacatez da vida campesina,molda o homem numa fria forma de pessimismo, de coragem, de pragmatismo imediato que não permite ter da vida uma visão de projecto, senão um "salve-se quem puder" que fortalece o carácter mas não faz de cada indivíduo um ser excepcional. Tudo gira em torno da tradição, da imitação de gestos, da aprendizagem servil de novas ideias, raramente postas em causa numa atitude passive e condescendente. Tudo acontece por obra do destino, de um fatalismo nato, o beirão acaba por tudo aceitar de bom ou de mau, como se fora uma provação, uma cruz grande como o universo, cujo peso só cada um pode avaliar.
Jaime não fugiria a esta vibrante e apaixonada visão da vida, que pode levar-nos à louca ideia de que no mundo o centro somos nós. Tudo é amor mas pode ser ódio, a razão ocupa pouco espaço nestas ligações afectivas ingénuas e perigosas.

Agora que estamos na UE!



A agricultura em Portugal não era uma ciência exacta mas todos conheciam segredos, artes e artimanhas transmitidos de geração em geração e a terra ciclicamente era fecundada com respeito e esforço. A experiência que o homem tanto defendeu no Renascimento, como forma de saber e aumentar o conhecimento era, no trabalho da terra, uma realidade incontestável, embrenhada nas rotinas do pragmatismo.
Também o  espírito pastoral desta boa gente das Beiras, acentua  uma comovente e peculiar maneira de mergulhar na memória. Jaime abraçado à retorcida figueira , vê na retina da mente, a sua figurinha vestida de escuro, a cor de eleição  do português dessa época cinzenta.Revia-se frágil, desprotegido, as socas de madeira quase sem solas, acenando triste como se fosse iniciar uma longa viagem...mas não! Ele tinha sete anos , era tempo de passar os olhos pela cartilha . Ele sabia que fazia falta na quinta, a despeito da sua tenra idade pois já ajudava a recolher o gado atrás da cadela Líria. Sabia...ou talvez não que a sua escolaridade não iria prolongar-se, porque seria ele um privilegiado? Depois das primeiras letras e dos primeiros números a própria vida ensinava a conhecer a história das gentes, do povo e sobretudo a ter bom-senso e cautela.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Terras de bravos que pelejavam por uma amante ora exigente ora plácida ao sabor das estações

As cabras da família por vezes causavam desavenças com os vizinhos.Bastava vaguear o olhar pela serra e lá iam elas aos saltitos mordiscando os rebentos dos pinheiros da Dona Auzenda.Valia a pena arriscar e, de vez em quando, olhar a beleza sólida, real e imponente das encostas salpicadas de uma miríade de cores de Primavera ou simplesmente cobertas de lençóis flutuantes e húmidos do Outono.
O respeito pela propriedade era um ponto de honra, para quem pouco ou nada tinha de seu. A fertilidade da terra era arrendada, as quintas e as casas também o eram, em troca de pouco ou de muito.Por muito pouco recorriam à violência, por pouco chegavam a matar! Jaime bem se lembrava da história mil vezes contada e outras tantas fantasiada que enlutou uma família de Vale Prazeres...tudo por causa de uma galinha.
A terra era uma amante que pedia sem cessar amor,esforço e justiça. Só o gado podia por ela vaguear mas mediante regras impostas pelos homens. Nela podiam despejar as suas entranhas e assim enriqueciam-na em troca de alimento.Nos "cancelos" praticava-se uma espécie de troca: o pasto pelo estrume.Tudo era economia, tudo tinha de ser gerido com zelo e respeito. Nada era desperdiçado. As leis da natureza eram imutáveis, rígidas para que nada se perdesse.

Perante Deus não somos todos iguais?

Na Igreja Paroquial, também as diferenças sociais eram mantidas num nevoeiro devoto.Os mais abastados podiam chegar em cima da hora da celebração, os seus lugares não estariam ocupados pela plebe.
Homens atrás, mulheres à frente...os rituais tinham destas coisas!Que efémera vaidade se o fio que separa a vida da morte, não nos compete a nós cortá-lo... porquê alimentar tantas separações e diferenças?Poderá o Altíssimo vislumbrar na sua extrema bondade que a esmola do pobre é por vezes a sua maior riqueza e a do rico é supérflua?
Findo o ofício, a família  de Jaime retomava o caminho para casa. O gado não podia esperar, a ordenha tinha de ser feita mesmo em dia Santo.
No Ameal ficava sempre alguém a cuidar das ovelhas de das cabras.





A moda do "serrabeco" e as mão fadadas que tudo transformavam


A mãe Ermelinda, mulher iletrada mas de apreciáveis qualidades, zelava para que a sua família, todos os Domingos e Dias-Santo, fosse à missa impecavelmente limpa. Era vê-los em fila, os mais novos de fatinho de fazenda, por ela delicadamente cosidos, na velha máquina a pedal, bem penteados e ensaboados, de chapéu de abas.O pai de "serrabeco" caminhava à frente, esguio, de tez pálida e nariz romano. A matriarca, um pouco mais atrás, tentava seguir-lhe o passo, ofegante por causa da maldita bronquite que lhe oprimia o peito e aprisionava a energia.Benzia-se porque era dia Santo e de descanso e mesmo na intimidade dos pensamentos, esconjurar a sua própria doença podia desagradar ao Altíssimo.

A vida para além das aparências

Os filhos ricos da terra que naqueles tempos viviam sem petulância, como pequenos aristocratas, em casas senhoriais robustas e simples.A riqueza ostentativa era uma ofensa à moral cristã.Para entrar no paraíso as regras eram rígidas. Existia entre ricos e pobres um ténue linha que no entanto os demarcava e dividia durante gerações.
Na missa os mais abastados tinham o seu lugar guardado com discrição e piedosa compaixão pelos mais desfavorecidos.Tudo era modéstia, tudo era doseado e se existiam linhas fortes que separavam o bem-nascido do filho do pobre. Só pequenos sinais distinguiam, no dia-a-dia os filhos Mendes ou os filhos do Senhor doutor Feliciano, do  Jaime com quem brincavam na escola quando o rebanho permitia ao petiz dispor de algum tempo para ele.

sábado, 17 de julho de 2010

Crescer antes do tempo, viver fora do tempo


Lá estava o seu Jaime, franzino, encolhido e meio tapado pela saia da irmã que durante três longos meses substituíra a mãe.
-Mãe! Gritou Lurdes meio mulher meio criança. A aparição da mãe acabava com um fardo demasiado pesado para os seus jovens ombros.
A vida desta gente não fugia à regra dos demais da região.
Almas humildes, ricas em cega fé mas materialmente pobres ou talvez remediados. Um dos sinais de riqueza media-se pelo número de pés que numa família tinha bons sapatos  a estrear. A penúria só permitia aos filhos de Ermelinda que usassem tairocas de madeira que no inverno escorregavam pesadas, na neve Beirã.

Ermelinda que sonhos tiveste para a vida?



Ermelinda, faminta de paz no corpo, mas cheia de tranquilidade na alma, pedia ao seu Deus pelo mais pequenito. Todos os domingos, na igreja ali mesmo ao lado do Calvário. o número "um" desta rua íngreme e lajeada, albergava uma mulher que já tinha parido oito machos e uma fêmea.O seu corpo magro e esguio eram a consequência de partos sucessivos e de uma maleita nos brônquios que a secava a olhos vistos.
Um dos pequenitos partira mal chegara...estava ao lado de "Deus Pai". Partiu o inocente apesar das inúmeras "mesinhas" que não conseguiram resgatar à morte. Jaime , o mais novo macho da família viera colmatar esta perda. Uma perda que seria chorada com descrição e temperança, pois assim fora a vontade do "Altíssimo". Benzia-se e retomava a sua tarefa. Em breve estariam todos juntos na quinta do Ameal. Já não sentia as lancinantes guinadas nos seios doces e carnudos já não chorava a saudade do seu pobre Jaime . Aproximava-se a hora de fazer a trouxa e percorrer o caminho sinuoso sobre um tapete de caruma, através da mata que desembocava naquela pobre casa...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O que a terra dá, a terra nos tira

A terra tudo dava, nesta região de minifúndio, onde a água brotava naturalmente debaixo de cada pedra ou bombeada pela picota. Era preciso aprender desde novo a ter carinho, amor pelo trabalho da lavoura. A natureza retribuiria a quem a ela se entregasse de corpo, alma, e coração. Por isso mesmo antes do espírito se esvanecer, já os ossos estariam mirrados pelos duros trabalhos que a terra exigia.





Ser pobre era uma herança



Viviam em casas senhoriais mas tinham vidas simples. A riqueza ostentativa era na época uma ofensa à moral cristã. Para entrar no Paraíso as regras eram rígidas. Ricos e pobres traçavam linhas bem demarcadas que os dividiam. Na missa, por exemplo, os mais abastados tinham o seu lugar discretamente cativo. Tudo era discrição, tudo era doseado com piedosa compaixão pelos mais desfavorecidos que, humildes, agradeciam aos ricos a serena benevolência que demonstravam nos actos de caridade nas épocas festivas. Os meninos Mendes ou os filhos do Senhor Doutor Feliciano eram o exemplo da cultura da humildade inimiga da arrogante fanfarronice dos novos - ricos do presente. Aqueles meninos tratavam Jaime como um igual nas brincadeiras do recreio mas enquanto eles tinham o mundo ao alcance dos sonhos, Jaime era prisioneiro das suas humildes origens. Desde muito cedo as meninas eram iniciadas nas lides caseiras para servirem nas casas dos senhores ricos das cercanias. Na casa de Ermelinda também as mãozitas gretadas de Lurdes descascavam as batatas que seriam copiosamente regadas com o azeite armazenado, para o ano inteiro, com religioso desvelo. Jaime lembrou-se que , antes de partir com o pai atrás do rebanho engolia à pressa o mísero repasto. O leite ordenhado todas as manhãs serviria para fazer odoríferos queijinhos de ovelha, vendidos na feira do Fundão ou ao queijeiro que, todas as quinzenas chegava afogueado, puxando o burrico teimoso, albardado com meticuloso cuidado, não fossem cair os alforges, carregados com o produto do seu comércio artesanal. Eram tempos de uma pobreza sem fome mas mal alimentada.

Viver do que a terra parir



- Mãe! Gritou Lurdes, na cabeça dormente de Jaime. Aquela figura meio mulher, meio criança parecia aliviada com a aparição da mãe que a vinha substituir naquele fardo tão pesado para os seus jovens ombros. Ermelinda estava de volta na vida de Jaime mas nada seria como antes, dos seus seios não sairia a fonte doce da vida que alimentara Jaime durante dois anos.
A vida desta gente não era muito diferente dos demais habitantes da vila. Pertencendo à classe baixa dependiam do que a terra paria. Almas humildes, ricas em cega fé mas materialmente pobres. Podia-se dizer que a riqueza numa família se media pelo número de pés que podiam amiúde estrear sapatos. A penúria permitia aos seus filhos que apenas usassem tairocas de madeira que, no inverno, escorregavam na neve gelada da Beira. Sapatos a sério só para os ricos filhos, de ilustres famílias da terra, que viviam como aristocratas altivos mas solidários com a pobreza quando o calendário assim o exigia. 

Embalado pelo som guloso de um seio

Ermelinda era uma mãe frágil e debilitada pela bronquite crónica, ficara na vila numa casita de pedra nua, com loja para as bestas e uma única divisória. O acesso fazia-se por uma escada de granito, toscamente construída. Situava-se no largo José de Sousa, a escassa distância da Igreja Matriz onde o cinzel transformou o granito e lançou-o bem alto elevando muralhas para o divino. Aí nascera Jaime. Na rua do Calvário o menino iniciou uma penosa caminhada pela vida.
Jaime pouco tempo brincou nestas paragens, onde a vila e a montanha namoravam constantemente. Bastava percorrer duas vias, duas pequenas ruas e já se vislumbrava a Via Romana, uma Via milenar que com humildade e perseverança atravessava os montes até ao Fundão e começava ali… às portas do palácio do Picadeiro. Jaime recordou o Chafariz Real, onde as mulheres branqueavam a roupa da família.
A primeira provação de Jaime não lhe ficou na memória consciente. A sua separação do seio materno privou-o do carinhoso roçar da pele feminina. As mãos da sua mãe não o embalariam durante os três meses da desmama. Entregue aos cuidados da sua irmã Lurdes, o menino com apenas dois anos conheceu o Ameal onde passaria a primeira infância. Lurdes, mais velha onze anos, cuidaria do pai, do petiz e de dois irmãos, já homens feitos. Os restantes irmãos ou eram casados ou andavam a servir. Esta diferença de idade não impedia no entanto que a jovem não passasse de uma criança.

O reencontro com um espaço que não cresceu connosco


Penedos caídos do céu, pareciam -me em criança gigantes soldados da serra... agora ali estão petrificados à espera de mim, à espera que eu toque pela derradeira vez a sua pele áspera que o tempo não enrugou.

As árvores que nos fizeram homens


A serra da Gardunha, filha airosa da Serra da Estrela, berço de frondosos castanheiros e perfumados pomares; de abundantes riachos saltitando pelas fragas e de casas de granito com alpendres suspensos sobre lojas que abrigavam os animais que acabavam por ser o aquecimento da família mais barato e biológico. A figueira sussurrou-lhe : “Bem-vindo sejas! Estás de novo em tua casa.” Jaime sorriu e afagou o tronco áspero. Já não era o homem, o chefe de família… era de novo o petiz que galgava inconsciente ribeiras e muretes ao ritmo das estações.







Os olhos fechados, os bracitos magros à volta de um tronco, o pequeno Jaime fingia brincar às escondidas. Era o mais novo de uma família de nove irmãos! Não tinha ninguém da sua idade com quem pudesse seguir nas aventuras pelo mundo do brincar. Tivera um irmãozito , também ele chamado Jaime, mas morrera ainda de tenra idade. A morte na primeira infância era comum, por isso as famílias apressavam-se a baptizar os pequenos seres para assim enganarem o demo! O limbo não era a morada eterna apreciada por estes pais crentes e tementes a Deus. Jaime continuou a viajar em espírito e via-se agora com três anos. Era chegado o momento do desmame e seria levado para longe do doce néctar que a natureza sempre generosa lhe dava. Levaram-no para a quinta do Ameal onde Ermelinda não estaria à sua espera.

O regaço materno é a fonte primordial


Abriu os olhos e olhou de novo o caminho que tantas vezes tinha percorrido, rumo ao Ameal.Os dois quilómetros que percorrera, no balouçar da carroça, moeram-lhe os ossos já doridos da viagem entre Lisboa e Alpedrinha. Finalmente chegou ao destino: a casa que o acolhera em menino e de onde foi friamente arrancado do regaço que num dia de tristeza deixou de ser a sua fonte de vida .Era uma casa pobre da Beira rural. Uma casa sem idade como se fizesse parte da floresta que a rodeava. A fachada era humilde e térrea, virada para o pinhal. As traseiras dominavam terrenos cultivados. Aproveitando o terreno em declive, as lojas ocupavam a parte inferior da habitação e a elas se tinha acesso pelas traseiras. Jaime não conseguiu ver a coelheira que a sua memória ainda recordava, no seu lugar um anexo de construção recente, aguardava os recém-chegados. Procurou apreensivo vestígios que lhe devolvessem a paz. Precisava encontrar um testemunho fiável da sua estadia naquele casebre. Onde estava a velha e imponente amoreira? Desaparecera! A cadela Líria morrera há uma eternidade…o seu olhar deteve-se embevecido na figueira “lâmpara”. Erguia-se recurvada, retorcida pelo afago brusco dos gélidos ventos de Inverno que arrastavam até ao Ameal o paralisante bafo da serra, onde se aninhava a vila de Alpedrinha.

"Peregrinação" sobre um carro de bois

A vila tinha ficado para trás, aos solavancos embrenharam-se na verdura refrescante do bosque. O caminho de terra, esburacado e coberto por caruma, fazia deslizar as rodas de madeira. O chiar embalava a mente entorpecida de Jaime e mais parecia um gemido de prazer. O prazer e o deleite que Jaime sentia ao atravessar os campos do senhor Aurélio Pereira olhando as copas dos monumentais pinheiros que filtravam a luz do sol poente, brincando às escondidas com a sombra. Aqui e ali o pinheiral abria-se em redondas clareiras cobertas de giestas e urzes. Jaime conhecia estes caminhos e começou a contar as zonas desmoitadas. Algumas eram estéreis, nuas com a pedra que as cobria. Eram as Lajes! Uma dádiva da natureza serrana que o povo tão bem sabia aproveitar para a debulha.
Fechou os olhos e vagueou pela infância. Ouviu o chamamento de Ermelinda, sua mãe, que chegava ofegante carregada com o farnel para os homens da casa. Em círculo, virados para o meio da clareira, os homens tinham batido a compasso durante toda a manhã. Levantavam alternadamente os vara-paus com que malhavam o milho. Enxugavam as fontes suadas , com as costas da mão e retomavam a tarefa depois de um trago de água fresca da mina…

Os laços de sangue


-Tio!... Estamos aqui!! Não nos conhece?
- Somos nós cunhado! Gritou outra voz feminina gasta e envelhecida pelas agruras da vida. As crianças atordoadas pela viagem, viram adiantarem-se duas jovens mulheres que se aproximaram abrindo os braços, afogueadas na antecipação de um abraço efusivo. Ostentavam as suas maiores riquezas: as arrecadas de ouro velho e os fios que pendiam soberbos nos colos firmes e tímidos, que apesar do calor se mantinham candidamente cobertos por camisas alvas e rendadas.A terceira mulher mantinha-se à distância , discreta olhava embevecida as duas filhas frutos do acaso, frutos da terra brava do seu ventre trabalhador. Era impossível determinar a sua idade. A velhice e a decrepitude, por aquelas paragens, eram antecipadas pelos duros trabalhos do campo e dos partos sucessivos.
Houve abraços e afagos nas bochechas das crianças que não conseguiam desviar os olhares dos seios empinados das jovens primas. Nunca tinham visto tanto brilho, tantos penduricalhos valiosos, sem sentido por aquelas paragens em dia de trabalho. Não sendo dia Santo tinham sido tirados do baú para aquele encontro com os familiares vindos da grande cidade. Eram adornos que usados sem que fosse Domingo ou Dia Santo violavam os pescoços tisnados e suados sob o sol da Beira Baixa.
A bagagem era pouca mas pesada, braços de mulher aparentemente frágeis pegaram nela sem grande esforço. Era uma força trabalhada pelas necessidades da vida.
Encaminharam-se para a estrada, que nas traseiras da estação ferroviária, abriria caminho a novos encontros com o tempo, decorrido na solidão das memórias.
Após as calorosas , mas discretas, manifestações de familiar carinho, o grupo dirigiu-se, uns exaustos da viagem, outros com a pressa que caracteriza os que dependem de uma boa gestão do tempo para sobreviverem, para um velho e robusto carro de bois. A parelha esperava-os sob um sol que lentamente deixava o seu zénite e mergulhava os raios avermelhados na orla da mata centenária que em breve iriam atravessar. O único meio de transporte daquela família era um luxo ao qual nem todos tinham acesso. Não tinha bancos, por isso depois de arrumarem as bagagens tentaram sentar-se o mais comodamente possível, em cima do estrado, coberto de palha. Enquanto as crianças, sonolentas tentavam desesperadas agarrar-se aos fueiros pregados na carroça, as possantes vacas progrediam indiferentes aos obstáculos do caminho ; um odor quente exalava dos dorsos que fremiam sob o peso da canga de madeira , trabalhada com cuidadosa perícia pelas mãos de um artesão das redondezas.

Fez-se ouvir o chiar metálico do comboio que anunciava uma paragem… Alpedrinha presa no tempo e no espaço acolhia o seu filho que durante mais de duas décadas percorrera a vida sem olhar para trás! Emanava desta vila, do concelho do Fundão, uma beleza sólida, robusta mas airosa. Aninhada nas encostas da Gardunha, o burgo granítico espreitando o nascente e espreguiçando-se para sul protegia-se dos frios invernosos da serra, piscando o olhar frio de pedra sobre as férteis planícies. Uma mirada que não se cansa de abraçar o granito das casas floridas. Alpendres e escadas graciosos enfeitam a austeridade das construções de pedra. A estação de comboio que se erguia do lado sul da vila, era a porta de entrada para o inquieto lar da memória. Alpedrinha, nome deitado sobre azulejos azuis, apelava como um grito, vindo de longe no tempo. O cheiro! Aquele eterno cheiro da terra que embalava a infância. Cheiro persistente que exalava dos cancelos e acordava os temores do encontro com o passado. A paragem seria curta como em todos os apeadeiros perdidos, no distante desconforto das regiões do interior.

Vamos a despachar que o tempo não nos pertence! Desceram agarrados uns aos outros. Foi assim que ficaram, bem juntos sobre aquele cais distante e deserto.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Na subida da serra ganhava-se uma nova alma




Fez-se ouvir o chiar metálico do comboio que anunciava uma paragem… Alpedrinha presa no tempo e no espaço acolhia o seu filho que durante mais de duas décadas percorrera a vida sem olhar para trás! Emanava desta vila, do concelho do Fundão, uma beleza sólida, robusta mas airosa. Aninhada nas encostas da Gardunha, o burgo granítico espreitando o nascente e espreguiçando-se para sul protegia-se dos frios invernosos da serra, piscando o olhar frio de pedra sobre as férteis planícies. Uma mirada que não se cansa de abraçar o granito das casas floridas. Alpendres e escadas graciosos enfeitam a austeridade das construções de pedra. A estação de comboio que se erguia do lado sul da vila, era a porta de entrada para o inquieto lar da memória. Alpedrinha, nome deitado sobre azulejos azuis, apelava como um grito, vindo de longe no tempo. O cheiro! Aquele eterno cheiro da terra que embalava a infância. Cheiro persistente que exalava dos cancelos e acordava os temores do encontro com o passado. A paragem seria curta como em todos os apeadeiros perdidos, no distante desconforto das regiões do interior.
Vamos a despachar que o tempo não nos pertence! Desceram agarrados uns aos outros. Foi assim que ficaram, bem juntos sobre aquele cais distante e deserto.
Jaime olhou em redor e o seu olhar foi atraído pelas letras negras que lhe cantavam o nome da sua vila : Alpedrinha! Alpedrinha. Deixava de ser uma vaga lembrança. Era bem real. Podia finalmente cheirar os doces aromas que hortas e quintais lhe ofereciam prodigamente. Mais de vinte anos tinham decorrido desde a sua partida mas Jaime sentia-se de novo um menino. A plataforma abria-se para uma caminhada no tempo. As caras, os olhares, dos que passavam na estrada que contornava a estação, eram descohecidos mas, os perfumes, os odores que flutuavam, a palete colorida que pincelava a paisagem, eram os mesmos que povoavam a memória dos sentidos. A cor do céu, o verde-negro dos pinheiros, as casas de pedra cinzenta, o fumo que saía de uma chaminé distante, trouxeram-lhe reminiscências que Jaime pensava estarem enterradas para sempre.
O pão quente que a mãe guardava religiosamente na arca de madeira veio-lhe à memória como uma fugaz recordação. A cabeça de Jaime fervilhava, era um atropelo de lembranças que ele não conseguia fixar numa imagem concreta.

Como será a verdadeira viagem? O primeiro e o último passo que damos abrem ou fecham-nos para sempre as portas da serenidade.



A família esperava, impaciente, a chegada à pequena estação bem cuidada, após uma longa viagem de comboio, sufocante e maçadora.
Jaime olhava através das vidraças, a paisagem verde e cinzenta, tão querida e distante ao mesmo tempo. Terna memória dos tempos de infância, bucólica e dramática. Tempos duros de uma tenra vida sulcada pelo trabalho e comoventes eventos.
Os pinheiros altivos, de um verde triste, estalavam sob o sol escaldante e formavam manchas que salpicavam a penedia. Uma viagem organizada, pelo norte de Portugal, tinha suscitado a oportunidade, tão esperada e adiada ao mesmo tempo, para Jaime levar a sua descendência a conhecer a aldeia natal, onde mais tarde, a camioneta da excursão, os viria buscar. Esta viagem iria transformar-se numa viagem às origens. Uma jornada de purificação das lembranças já ténues, por vezes desconfortáveis, mas sempre revigorantes.
Na estação de Santa Apolónia, em Lisboa, a família Veríssimo (o pai, a mãe e os seus dois rebentos) pouco habituada aos ares das serranias, tinha iniciado uma viagem de baptismo, rumo a Alpedrinha, num comboio fumarento e desconfortável com os seus bancos de pau. A viagem seria muito longa, mas Jaime estremecia de alegre euforia e de apreensiva expectativa à medida que a velha locomotiva se embrenhava nos montes. Avançava suando e deixando escapar silvos estridentes, através dos campos ondulados onde o homem mostrava toda a sua habilidade ao aproveitar todos os palmos de terra que a serra sempre agreste mas generosa oferecia humilde e altiva ao mesmo tempo àqueles que se aventuravam a desbravá-la.
Como iria encontrar os lugares da infância, percorridos vezes sem conta pela imaginação de homem feito?
Tinha chegado à conclusão que não poderia continuar em frente com a sua vida, mantendo-se de costas voltadas para o passado. O presente não teria todo o sentido se não fizesse as pazes com a memória. Para isso ali estava ele , de pé, espreguiçando o olhar através das vidraças do comboio, como se quisesse fixar para sempre aqueles momentos fugazes do reencontro com os campos que, sob o Estio, estremeciam e faziam vibrar o ar em colunas de vapor.