terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Dançou e cantou sobre o inferno da eternidade

Quanto tempo faltaria para que as palavras escritas fossem suas companheiras, quanto tempo ainda para sob a protecção da mensagem Ariana pudesse formalizar o seu grito de revolta? Foram dois anos de silêncio, alimentado pelas ameaças de morte...e tu Jaime, nunca viste o brilho diabólico nos olhos semi-cerrados do Africano, como era conhecido no povoado o Velho do Chapéu? Nunca passa pela cabeça de um pai que a sua menina possa ser pendurada por um pezito sobre o poço mais fundo da quinta, deixando-se pendurar sem resistência, doce, humilde, de braços abertos em cruz como se de uma brincadeira se tratasse. Olhava fixamente a água escura e parada mas na sua cabeça nem o pensamento da morte eminente aflorava, as crianças não pensam na morte da mesma maneira que os adultos. Era quase um jogo onde morte era sinónimo de fim de jogo. Nunca imaginarias que a tua menina pudesse ser  fechada na fossa da bomba de tirar água ficando à espera que a tampa de cimento se levantasse e a voz doce do Velho fazia-se ouvir: " Vês o que pode acontecer se contares à avozinha?"
Compreendes agora Jaime que a tua história de menino da montanha foi curta, fugiste e organizaste a tua vida, fugiste de novo para terras mais distantes e aí começaste de novo o teu projecto, cada vez mais completo, mais doente mas mais sereno. A tua Ariana não encontrou essa paz mesmo quando dançou e cantou sobre a campa rasa do Velho enquanto tu gritavas: "Ela está doida varrida!"Ariana saltou sobre o inferno da sua eternidade,uma eternidade que durará o tempo da sua própria vida. Como ela lamentou não acreditar na vida depois da morte!Ariana lembrou-se naquele momento de desespero de uma frase repetida pelo Velho, de forma lacónica , vezes sem conta :" Podeis acreditar que nunca morrerei, estarei sempre cá para ser recordado!"Como já na altura eras bom psicólogo, tu sabias que estavas a traçar um caminho duro para a tua neta que todos os dias tem um pensamento para ti!
Nunca será esquecido o dia em que pela primeira vez acorreste de imediato ao apelo feito por carta. Chegaste "à pendura" com o teu prestável amigo. O Velho do Chapéu não gostou que invadissem a sua fortaleza onde cultivava segredos que humilhavam, que transpunham a linha onde os valores eram invertidos, onde os desejos eram balas que adormeciam a vontade, que alienavam todo um percurso de vida sem futuro. Segredos que não poderão ser levados para a indulgência da morte, depois da provação da vida ter chegado ao limite. Quando o silêncio é quebrado e fala a criança vítima de perversão sexual, o mundo deve calar-se e escutar com amor. Jaime será que algum dia aprendeste a escutar os outros com amor desinteressado,eu sei que é difícil para alguém que foi arrancado ao abraço da mãe, tão novo ainda tão frágil emocionalmente ver o mundo à distância de um olhar objectivo, mas lembra-te Jaime que foste participante numa vida que morreu antes de florir, não tiveste responsabilidade mas foste actor na peça onde Ariana se confrontou ainda quase uma bebé com o poder do dinheiro, o desprezo pela liberdade dos outros. Ariana e tu Jaime viajaram em sentidos opostos: tu cresceste numa construção continua do teu ser, Ariana cresceu com uma vontade quase obsessiva de se tornar cada vez mais pequenina até desaparecer. Tu lutaste pelo mundo que conquistaste a tua Ariana despreza o mundo que conquistou.

Tempestade

Toda a infância de Ariana fora um mundo do parecer que aniquilava o ser puro do qual ela não queria abrir mão. Apesar da tenra idade ela sabia que cada partida e cada chegada seriam sempre momentos de limpeza da alma, mais que enriquecimento, descoberta ou mudança. Perder a confiança nos adultos, ver neles a fonte dos pesadelos reais , transforma uma criança num adulto desiludido com todos e com a vida em geral. Um adulto alegre, capaz de encher uma sala com as suas gargalhadas, nunca viveu o sobressalto ao ouvir passos que pela noite dentro vagueiam pelas fronteiras da luxúria, dos jogos interditos. Um adulto descomplexado nunca dormiu encolhido nos lençóis que eram a última barreira que as mãos calosas do Velho ousavam transpor despudoradamente.
O som do seu coração galopante assustava-a...tudo seria mais fácil se ele parasse de bater! Na vasta cama que tinha atravessado oceanos, que tinha enfrentado a fúria do Zambeze, uma criança tremia antecipando o fugaz toque de mãos rudes que procuravam sem vergonha lugares interditos, puros e secretos. Ariana era o seu troféu de caça nocturna, tão indefesa como a pele de cobra ou de tigre que adornavam as paredes. Tão trémula e submissa como os filhotes de cervo cujas peles cobriam o solo.
Matança inútil como o é todo o acto que implica morte e sofrimento, por prazer ou desporto. Ariana era agora a presa que morria lentamente enquanto as mãos sebosas exploravam o corpito magro, dormente e vazio.O seu espírito vagueava pelo quarto e incrédula olhava para baixo e via na vasta cama uma menina que ela não reconhecia de tão encolhida que estava à espera que passasse a tempestade.

Fechar a porta

Jaime habituara a família a tratar a vida como um casaco velho. Utilizamo-lo, despimo-lo e sem olhar a sua história  deitamo-lo fora sem meios-termos. Ariana conciliou-se com a ideia que tudo o que nos pode fazer felizes é efémero assim como tudo o que nos magoa faz de nós fortalezas. Desde pequenita habituou-se a deixar a protecção familiar e por isso não hesitou a pôr um ponto final às suas estadias no Montejunto. Selou a porta às noites em claro, ouvindo pela calada da noite o seu avô a rondar a casa de pistola em riste pronta a disparar, acordando os temores que vivera em Moçambique, onde uma sombra podia ser a morte anunciada.
A sombra dessa noite era a de Uri que respondera à chamada da amiga. Naquela noite rastejou até à janela do quarto de Ariana por onde ela fez, sorrateiramente, deslizar uma carta, endereçada aos pais. Era um grito de socorro abafado pela vergonha: - " Venham buscar-me, não quero mais estar aqui !"
Nessa noite o pequeno amigo correra riscos, mas a cumplicidade nasceu e morreu ali mesmo. Com pesar ele sabia que estava a ajudar a amiga a sair para sempre da sua vida.
Nunca mais brincariam debaixo do monumental pinheiro. Nunca mais ririam ao ver os carreiros de formigas , como exércitos obedientes transportando as provisões para o inverno, serem dispersados com pequenos paus. Maldades pueris que aumentam a excitação ao intervir na ordem natural. Nunca mais desceriam à socapa até à ribeira que saltitava humildemente por entre seixos e barro no meio do canavial. Pobre criaturas douradas e avermelhadas, nadavam em fuga debaixo dos pézitos descalços que chapinhavam num barulho ensurdecedor. Pequenos gritos calavam o trinar dos pássaros e o cantar da cigarra, escondidos nos choupos e nas canas que, assobiavam nos dias ventosos e ondulavam, indolentes, quando uma ligeira brisa da serra animava as crianças que partiam numa louca correria, ribeira abaixo, tal navegadores sem bússola, descobrindo mais e mais pedaços de horizonte que parecia encolher diante dos olhos delirantes de alegre camaradagem.Nunca mais brincariam com os pequenos brinquedos feitos por Uri que, com extrema habilidade e paciência, pegava em arames, torcia e retorcia-os até lhes dar a forma desejada. Ariana olhava sempre boquiaberta as mesinhas, as cadeiras, as bicicletas ou as carroças que apareciam como por magia e que ocupavam as crianças nas tardes solarengas, debaixo da macieira ou no meio do caminho de terra.
Nunca mais desceriam às minas onde a escuridão os impedia de ir além da entrada onde a água cristalina e gelada dormia no seu cálice sagrado. As risadas tornavam-se então mais nervosas perante aquele milagre da terra que chorava revelando-lhes as suas entranhas e segredos.
Ariana trocou estas aventuras na serra por uma vida na cidade, presa entre as paredes de um primeiro andar, para se livrar das investidas sexuais do Velho do Chapéu.
Nenhuma criança merece tão cruelmente ser obrigada a crescer, reconhecendo a necessidade de fugir do abraço pérfido e matreiro de quem deveria protegê-la.

Mão que mata coração que chora

" Alecrim, alecrim aos molhos
Por causa de ti
choram os meus olhos!"
A canção trouxe-lhe de volta o aroma forte que o envolveu quando o abraço do seu pai se prolongou e por segundos cristalizou o ontem e o agora numa relação sem futuro; foi envolto no mesmo perfume de Verão que Jaime se despediu de Ariana sob o frondoso pinheiro que seria testemunho mudo do fim da inocente visão sobre o mundo. Jaime não sabia que ao entregar a sua menina aos "avós" vindos de paragens onde se podia trocar a  virgindade de uma menina por uma garrafa de álcool, estava a abrir-lhe um universo de possíveis feridas morais. Eram costumes exóticos que ligavam os colonos brancos aos nativos, mostrando os primeiros um total desprezo pela dignidade das mulheres e crianças e os segundos uma certa degeneração dos laços familiares, por isso o Velho trazia na sua bagagem de colono o hábito infringir todas as regras.
No fundo os colonos eram o garante da supremacia do império, eles representavam nas colónias portuguesas o ideário Salazarista que seguia um padrão paternalista e conservador, que defendia e promovia o trabalho forçado do negro mas ao mesmo tempo adaptava-se aos costumes indígenas de forma mórbida e imoral.
Se para um negro o sistema de trocas era normal, trocar uma jovem por uma certa quantidade de vício nada tinha de comprometedor: era uma mera troca comercial. Para o colono era mais do que isso pois ia contra todos os usos e costumes do bom povo português que matava com as mãos enquanto chorava com o coração e os olhos virados para Deus. O Velho-do- Chapéu, nestas paragens , cavalgava como cavalo à solta com o cio da primavera.

Uma vida nos veios de um tronco

Jaime trauteou uma moda da sua terra:
"Alecrim, alecrim dourado
Que nasceu no campo
sem ser semeado.

Alecrim, alecrim dourado
Que nasceu no campo
Sem ser semeado.

Foi meu Amor
Quem me disse assim
Que a flor do campo
É o alecrim"
À medida que a cantiga avançava a voz tornava-se num murmúrio, um fio de água do monte. Jaime olhou o horizonte do plano geral da sua vida e achou que em certa medida tinha mexido no destino das pessoas que ele mais amava. Não conseguiu sentir mágoa por ter assumido o papel de actor e realizador da sorte da sua família. Sentiu-se abençoado por ter a liberdade de escolha num projecto de vida que talvez estivesse nas mãos de poderes ocultos, ele não sabia nada dessas questões de Deus, de livre arbítreo ou de fatalidade. O certo é que ele selou um pacto com a vida: não deixaria que ela acontecesse fazendo dele um espectador lamuriante, um eterno queixoso.
Lixou o tampo da mesa , com vigor, passou com os dedos sobre a textura fina e suave da faia. ele apreciava o grão fino desta variedade de madeira que resistia à força do serrote tal como o seu seco coração parecia impenetrável ao afectuoso abraço dos filhos; Jaime seguia meticulosamente os sentido dos veios, a lixa ia e vinha em movimentos regulares, para que as fibras da madeira não fossem danificadas. O acabamento tinha que ser perfeito.
Licas achava que o seu companheiro e esposo tinha a mania da perfeição, uma espécie de loucura saudável e construtiva que o impelia a procurar uma ordem metódica na arrumação da sua bancada assim como na organização da sua vida.
Ele tinha rotinas que exigiam paciência, dedicação, mas jamais empreendeu uma tarefa que não lhe desse satisfação, talvez por isso podia considerar-se um homem livre e feliz mas eternamente insatisfeito; era uma insatisfação positiva que não lhe tolhia a vontade, bem pelo contrário ele era criador, artista, obreiro do seu caminho.

O medo sem nome


Os tabus, os valores morais deixaram de fazer parte do mundo fabuloso da pequena. Ela conheceu então o lado mau do Homem-Lobo que a seu belo prazer invertia todos os valores...e Ariana não podia fugir da teia que luzia tremendo ao menor som dos passos ora pesados ora leves do Velho do Chapéu.
Como o seu pai fora atirada às feras da montanha. Também Ariana se via só e sem saber ao certo se a menina má e perversa era ela, quando de soslaio olhava para a penugem da velha que a tratava por"netinha" para aqui, "netinha "para acolá...
- Netinha, meu amor, faz um favor à tua avozinha...vai buscar o "MITONGO" quero ver se  andas a portar-te mal!...e lá ia a criança tremendo buscar o frasco azul que tinha o poder de desvendar todas as verdades e de castigar os mentirosos.Percorria o longo corredor o mais devagar que podia, desejava que o tempo parasse para evitar que a velha pegasse no temeroso frasco e o posasse na cómoda de pau-preto e desafiando todas as forças obscuras e enterradas no solo Africano ela proferia palavras mágicas que amedrontavam a pequena.Será que a "avozinha" conhecia o segredo?
A cómoda desaparecia, o frasco azul esfumava-se no breu do poço onde ela acabaria por ser enterrada viva se o segredo se soubesse, Ariana nem respirava, aguardava como bicho preso na teia que tão meticulosamente os velhos teciam à sua volta.O poço girava na sua cabeça, o medo da verdade pregava-a ao chão. Finalmente a velha Nila respirava fundo e olhava de soslaio para a criança, rodava sobre o banco e estendia os braços rechonchudos. Era o sinal para a criança se refugiar no seu seio volumoso.Ariana escondia a cara e soluçava de raiva e de alívio

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Para além da fantasia

...e na manhã seguinte de novo Ariana era chamada para participar neste estranho rito . O odor quente e acre dos líquidos que caíam sincronizados sobre a porcelana do trono sem rainha enchiam o ar húmido e gélido da sala do "trono" e de novo ela fugia perturbada.
Jaime...Jaime se tu ao menos tivesses um olhar mais atento e visses os olhos da tua menina, desorientados e aflitos, cada vez que lhe pagavas ao colo e a punhas sobre a mota negra do teu amigo, que te fazia o favor de vos transportar até à serra do Montejunto. Aí chegados era um Adeus breve e Ariana acenava os olhos marejados, não de saudade mas de medo do vendaval de luxúria que isolava  a menina no Casal do Alto da Póvoa como se aí se criasse um novo mundo de Alice fantástico e cruel.
Aí os coelhinhos não falavam mas ela bem os ouvia guinchar debaixo da terra quando o avô os enterrava ainda vivos porque estavam doentes. Os tabus, os valores morais deixavam de fazer parte do mundo fabuloso da tua pequena Ariana.
Ela conheceu então o lado mau do homem-lobo que a seu belo prazer invertia a moral mas Ariana não podia fugir!
A protecção de Adelaide, da mãe Licas ou mesmo do pai sempre distante e severo desapareciam assim que a mota fazia a primeira curva no caminho térreo, Ariana via a sua família do outro lado do mundo que parecia tão longe e logo ali para lá das montanhas.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O trono de porcelana

No trono sentava-se a avó Nila, pernas semi-afastadas e, enquanto ariana tentava apertar as pequenas sandálias, o seu olhar desviava-se para as cortinas em renda que filtravam a luz da manhã , o sol entrava na vasta casa de banho, eram como fios de ouro que atravessavam os vidros martelados e refulgiam nos azulejos alvos, como diamantes pequeninos dançando na parede fria.
A voz doce da "avó" chamava-a à realidade, se não se concentrasse na sua tarefa, demoraria mais tempo e Ariana queria tanto fugir dali para fora!

Ariana olhava para os pés pequeninos e gordos e quase se punha de rastos para que os seus olhos sonolentos se desviassem do tufo negro e odorante que começava então lentamente a deixar escorrer os fluidos matinais.
A menina apressava-se, sentindo náuseas, a encontrar a presilha, os seus deditos retorciam-se até doerem e finalmente conseguia fugir  a correr daquele dilúvio de luxúria que a avozinha , com pequenas risadas organizava todas as manhãs, sem maldade claro...
Como podia ela adivinhar que o odor ácido a urina incomodava a sua "netinha"?
- Marota! Não olhes tanto para cima!- dizia ela enquanto afastava discretamente as pernas luzidias e alvas.

Se fores marota- continuava ela- olha o "mitongo!"
O "mitongo" era a palavra mágica que filtrava na cabeça infantil
a memória de algo perverso. Foram necessária muitas viagens para que Ariana visse nestes momentos íntimos algo encapuçado com o véu da delicada leveza do faz de conta.
Estes momentos fugazes e absurdos não tinham registo no quotidiano de Ariana, por isso ela depressa os esquecia e entregava-se às brincadeiras da sua idade... até à manhã seguinte

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A culpa

O soberbo pinheiro era o refúgio da solidão com travo amargo em que Ariana vivia, longe da família que a entregara aos senhores de África a quem ela tratava por avós. Ariana sentia um misto de tristeza e de desvelo ao olhar aqueles campos ondulados do oeste, que vibravam com cores suaves, cuja matiz variava sob o deslizar das nuvens macias e velozes que, inexoravelmente, se concentravam nos cumes da serra do Montejunto.




Os contornos delicados da serra chamavam Ariana nos dias ventosos do primeiro inverno, passado no "Casal". O vento era o seu companheiro e ela pensava assim não estar sozinha naquela odisseia em que o canto da sereia tinha a voz melosa  e insistente do Velho de Chapéu de abas largas ou da voz doce e aguda da Nila que, todas as manhãs lhe pedia para apertar as sandalitas.
Ariana não resistia a tanta delicadeza. Estava habituada aos modos bruscos do pai e à voz nervosa da mãe Licas. Aquela voz de gata com cio chamava a menina para junto dela. Feliz, Ariana aproximava-se, ela gostava de ajudar... mas depressa a inocente alegria dava lugar a uma revolta carregada de culpa.

Sociedade silenciosa

O mundo dos adultos erguia à volta das crianças longas teias de segredos, as decisões nunca eram tomadas em franco e aberto dialogo. Os pequenos giravam na vida dos adultos mas não eram gente. corriam pelas casas, brincavam em surdina mas não eram pessoas a tempo inteiro. Por vezes eram surpreendidas pela chegada repentina  de um novo membro da família que se transformava numa incómoda e usurpante presença. Tudo era envolto em mistério, meias palavras, meias verdades, metáforas: a sexualidade, a gestação, o milagre do nascimento e até os afectos. A criança não podia ver a luz da verdade que conspurcaria a inocência natural dos petizes. Nesta atmosfera de meias verdades eles depressa se poderiam transformar em vítimas de terríveis sevícias.
Vivia-se atolado em véus que uma vez levantados poderiam pôr em causa a harmonia social. A verdade era perniciosa nesses tempos em que Deus tinha que existir à força por contrato tácito entre a Razão imperfeita e o coração temente. Jaime recordava-se que aqueles tempos não tempos de escolhas racionais. era o tempo dos silêncios amargos que falavam de guerras, de abortos que não o eram, de infidelidades e violência doméstica que a tradição talhava à sua medida.
Tagarelava-se muito e atafulhados em comiserações e coscuvilhice, as pessoas não erguiam os olhos para a história que se ia desenrolando à porta de cada um. antes de deixar o seu país, Jaime bem se recordava dos carros negros da Chrysler que de vez em quando estacionavam em pontos estratégicos da cidade.
Instintivamente impunha-se o silêncio na Rádio Moscovo. Corria-se mais apressado para ir, à mercearia da frente, comprar um decilitro de azeite, meia dúzia de bolachas Maria ou um quarta de açúcar, amiúde para pôr no role pois o ordenado só chegava ao Sábado.
Apesar destas rotinas inocentes alguém desaparecia para sempre, pela calada da noite, desapareciam engolidos pelos carros negros ! Muitos sabiam que em nome da liberdade a polícia da defesa do estado prendia, torturava e por vezes matava. Muitos sabiam e muitos mais se calaram.
Naqueles tempos ainda tão próximos, pensar, reflectir e criar era um luxo, um desperdício de energias, um perigo para o bem comum que se focava na melhor maneira de sobreviver.
Era imperativo sobreviver à falta de instrução, à falta de apoios sociais, à ausências de qualquer politica de habitação. O olhar só se levantava aos céus para pedir ajuda divina e raramente para ver voar os pássaros livres.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Não quero partir

A viagem aconteceu sem que Ariana estivesse preparada ou tivesse escolhido empreendê-la.
A mãe Licas, um certo dia, lavou-lhe com mais cuidado os caracóis longos e ouro; pôs-lhe o vestidinho branco dos baptizados e apresentou-a a um avô tisnado pelo sol de Moçambique e a uma avó Nilas, redonda, de ar bonacheirão e bem cuidada. Ariana impertigada respondeu:
- Só tenho a avó Adelaide, não tenho mais nenhuma!
Então a Senhora com vestido de seda e um belo colar no pescoço gordinho falou e a sua voz terna, quase inaudível cativou Ariana. Baixinho disse ao ouvido da menina:
- Vens connosco durante o tempo que quiseres e serás muito feliz!
Jaime não foi ouvido mas para Licas que sofria ao ver partir a sua menina, seria menos uma boca a alimentar por um período indeterminado. Não via o seu pai desde adolescente mas o seu olhar profundo de um azul transparente ainda a inibiam e ela não sabia porquê!
Ariana chorou baixinho, ela nunca deixara a família para seguir dois seres tão estranhos. Ela não sabia que seria o início de uma louca experiência que a rasgava por dentro e destruiria para sempre a sua ideia de que o mundo era belo e seguro.
A senhora intrigava Ariana com os seus vestidos de seda, discretamente decorada com animais exóticos e plantas estilizadas em relevo, em tons prateados, dourados e lazúli. Das bochechas redondas e coradas sobressaía um narizito ligeiramente achatado, na boca rosa tinha um sorriso eterno que só muito raramente se transformava em esgar quase cruel.

Quanto ao Velho mais parecia uma personagem de banda desenhada: Chapéu branco colonial, fato branco, olhar azul-claro e penetrante, sorriso imutável desenhado nos lábios finos e desdenhosos.
Ele assustava Ariana com a sua estatura gigantesca, as suas mãos duras e grandes, a menina refugiava-se no colo desconhecido da "avó Nila". Ela sorria e enfonava os seios opulentes. Orgulhosa pensava que não estaria longe o dia em que aquele querubim viria a ser seu.
Ariana ainda não o sabia, Jaime e Licas  também não suspeitavam que, ainda menina, teria que lutar pela sua liberdade.

domingo, 21 de novembro de 2010

Regresso do inferno

A pequenita Ariana viveu protegida pelo casulo que Adelaide ia construindo à sua volta como se temesse que algo de terrível pudesse acontecer à sua menina do coração.
Chegara o ano de mil novecentos e sessenta e um, a FRELIMO iniciava o movimento de libertação de Moçambique. Na região do Zambeze Licas e Januário já tinham sido avisados que o melhor mesmo seria partir o quanto antes, ninguém seria poupado sobretudo aqueles que, como eles, vivessem isolados no mato, nas "sanzalas" onde ainda existia uma certa forma de escravatura. Nila não compreendia muito bem como é que as coisas podiam tornar-se mais dramáticas. Perdera já o seu pequenito Joaquim que aos sete anos fora violentamente esmagado por um camião. Perdera a Razão e durante algum tempo o relógio parou na sua cabeça. O seu trato afável, meigo e discreto talvez lhe tivessem salvo a vida. O criado que ela sempre tratara como um filho, um irmão de brincadeiras do seu menino Joaquim, segredou-lhe nervosamente para avisar o "Buana", o patrão Januário, que era melhor partir, deixar a loja a "sanzala" e a criadagem para trás.
Os últimos meses da estadia foram dedicados a empacotar tudo o que puderam; nem se despediram dos amigos que nunca mais reviram. Aproveitando as cheias do Zambeze fugiram como ratos desorientados deixando o navio.

Numa manhã, bem cedo, escondidos pela neblina deixaram a "machamba" que Januário dirigia com mão e chicote impiedosos. A embarcação baloiçava nas turbulentas e lodosas águas que a impeliam raivosamente. Por fim deixaram a região da Beira e subiram para Quelimane. A viagem até terra segura durou dias e só foi possível com a ajuda  dedicada do mulato, do pequeno servo e amigo.

Terminou ali a aventurosa viagem por terras do Ultramar onde tinham vivido como conquistadores sem exército. Nas colónias bastava que a cor da pele fosse branca, muito empenho e trabalho claro, e por vezes poucos escrúpulos para alcançarem os objectivos que Portugal negava ao cidadão das classes mais baixas.
Embarcaram para a metrópole e refizeram a viagem de retorno:  mais velhos, a bolsa um pouco mais pesada mas o coração de Nila chorava mais pobre,  transportando no porão a urna do filho que seria enterrado em frente da Serra do Montejunto.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Ariana

Ariana era como todos os bebés: linda, frágil e terrivelmente incómoda. A débil saúde do pai ditou  a partida do casal para a margem norte de onde sopravam os ventos dominantes poluídos e doentios. Ariana ficou para trás, entregue ao desvelo da avó que se transformaria na sua mãe de berço. A pequenita encontrou na casa da avó Adelaide a atenção que os pais não lhe podiam dar; divididos entre as dificuldades impostas pelas carências financeiras e os dramas ocasionais que a saúde do chefe da família impunha.
A pequena mulher suportou com uma misteriosa beleza no olhar azul o que outras mulheres teriam transformado em pesados fardos do destino.
Jaime estremeceu comovido e martelou a peça de madeira a compasso da emoção que sentia ao recordar como foi difícil deixar para trás Ariana, tão pequenina, recém-desmamada, cega procurando sem cessar o seio materno de Licas que chorava quando ao domingo ia visitar Adelaide e via a cabecinha calva da menina esfregar nervosamente o regaço seco da avó.
Como ele amava aquela menina!
No entanto uma espécie de pudor nunca lhe permitiu abraçá-la e dizer-lhe o quanto ela era importante. Quantos sonhos perdidos ele projectara para Ariana!
Quantas desilusões Ariana representara.! Como Jaime tudo esperava, tudo o que não aconteceu foi desencantamento e tudo o que Ariana conseguiu teve pouco mérito aos olhos do pai.

Cai o céu por um beijo roubado

Decorreram dois anos e Jaime desta feita não soltou as amarras do cais do amor. Prendeu-se à mulher-medusa que borboleteava num encantamento e numa sedução que embriagaram Jaime e o aprisionaram para sempre. Jaime o "Penteadinho" passou a ter uma família. Licas passou a ser o seu refúgio e a sua perdição quando, ainda marinheiro, ia adiando o seu regresso ao Alfeite e a altas horas da noite tinha que percorrer quilómetros em caminhos de terra que serpenteavam as matas de pinheiros esguios e eriçados, sob o luar que inspiravam terrores e arrepios ancestrais. Todos os dias sob o pretexto de ir visitar o seu irmão Adrião, que se mudara com a família para uma casita na mata da enxurrada, Jaime cavalgava sobre uma velha bicicleta para junto da sua amada...
Na bancada de trabalho Jaime assobiou com mais força, alegremente passearam com ligeireza, como nuvem fofa, os cabelos ondulados que enfeitavam o rosto redondo e alvo de Licas.Quem diria que a mulher-menina que parecia tão frágil que galgava valados soltando gargalhadas sonoras, viria a ser a companheira dedicada que lhe daria cinco filhos saudáveis, voluntariosos e independentes?
O primeiro beijo roubado, a primeira loucura vivida a dois deu origem a Ariana que iniciou a sua passagem pela vida numa noite ventosa e fria.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Na viagem decide-se a vida

Por mais distantes que estivessem os momentos em que o rumo da vida mudara de direcção, o assobio de Jaime era o anúncio de uma viagem pelas lembranças que o seu cérebro arrumava metodicamente e por ordem crescente da dor infligida . Na gaveta do fundo do grande armário da existência ficavam os momentos que até poderiam ter sido felizes mas ou porque envolviam personagens insignificantes para Jaime, ou porque com a sua rudeza de carácter e a sua inclinação para o confronto físico, momentos de agradável convívio tinham-se transformado em brigas que acabavam sempre por castigar a cabeça de Jaime que na peleja servia sempre como arma de arremesso. Jaime preferia fingir que esses momentos nunca tinham existido... afinal ele até nem era má pessoa!No topo das recordações Jaime persistia em guardar os tempos difíceis na Serra como se se tratasse de uma zona de conforto que justificava o seu carácter sofredor.
Jaime assobiava uma melodia quase monocórdia e em cada assobiadela salpicos de luz saíam da nebulosa da sua juventude e faziam-no fremir de prazer; luz sob a forma de mulher-menina, loura de olhar marinho e ladino, nariz arrebitado e pequenino, estas memórias raramente eram objecto de conversa em público, pertenciam ao campo do sagrado, da felicidade virtual e no entanto era uma realidade que pertencia ao passado e circulava pelo presente.
Nas horas serenas a imagem de Jaime marinheiro flutuava entre o martelo e a tábua que seria banco, berço ou o que a necessidade exigisse. O nosso marinheiro nunca viria a entorpecer os sentidos no azul do mar profundo só o abraço da menina-mulher e o primeiro beijo fugidio ainda lhe aqueciam o peito e o embriagavam ao fim de tantas décadas de vida em comum.
Ainda no colégio, tinha então dezanove anos, quis o destino que ao fazer a travessia do Tejo com a sua irmã Benvinda, a futura companheira sentara-se a seu lado, distante, delicada, bela de cabelos de trigo sob a lua cheia. Os balanços do "Sempre Fixe", que ligava as duas margens do Tejo, não conseguiram tirar à jovem o seu ar compenetrado e tranquilo. Era passageira habitual do pequeno, mas robusto barco, naquela curta travessia; uma mera viagem no rio que a levava e trazia todos os dias, à mesma hora, e o seu futuro ficaria decidido como se naquele instante mágico algo no universo tivesse parado a contemplar um projecto humano com defeitos e virtudes, com lágrimas, dramas, alegrias e sonhos.


Um banco de madeira numa casca de noz foi o palco escolhido para uma encenação onde as personagens ficaram agarradas ao momento etéreo onde explodiu o amor. Foi assim porque tinha de ser, ninguém perguntou:-" E se alguém questionasse o destino? "

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A alma das coisas

Nos tempos livres  passava horas  a olhar a madeira. Em silêncio desenhava o projecto na cabeça, inventava os malhetes que encaixariam na perfeição, seria bom que a sua própria vida fosse bancada de marceneiro, onde tudo estava arrumadinho e era meticulosamente limpa no fim de cada trabalho! Na vida era bem diferente cada gesto não apagava o outro, cada acto não esvaziava o que lhe antecedera.  Só na intimidade do lar reconheciam que Jaime era mais que um bom profissional. Era um artista que punha a  alma nas suas criações. Ele inventava os instrumentos com que trabalhava a madeira; de uma máquina de costura nascia uma serra com que fazia recortes florais para os embutidos, de um pedaço de ferro nascia a peça que transformaria a tábua em peça torneada,  a máquina para cortar fiambre seria transformada em máquina de desbastar as arestas mais renitentes.
Tentava  acalmar a frustração em que vivia, na vida profissional, enchendo a casa com as suas criações que durariam muitas vidas. Cada trabalho tinha um segredo, nenhuma cómoda ou secretária se abria sem que o segredo fosse descoberto. Nenhuma caixa se revelava sem que o mistério da sua abertura fosse explicado por Jaime. Era a sua marca.


Na empresa mostrava os seus dotes quando alguma remessa era recusada devido a defeitos de fabrico. Noutras ocasiões eram milhares de francos que se desperdiçavam, com a chegada de Jaime à empresa a solução tinha sido encontrada. Durante semanas Jaime era solicitado para "engomar" as portas como ele tinha sugerido ao ver as  amolgadelas .Com paciência de artista ele utilizava o ferro de engomar para fazer com que a madeira voltasse à forma original sob o efeito do calor. Com um simples ferro de engomar a reputação de Jaime percorreu a empresa como notícia de jornal e acertou o seu destino até à idade da reforma antecipada pela doença. Foi respeitado por chefes e colegas que o elegeram para ser seu representante, Jaime nunca deu no entanto grande importância a essa tarefa. Nunca fora homem de discussões em cima da mesa, de debates sem fim. Era um homem de acção, entregava-se de corpo e alma aos seus projectos e por vezes sem medir as consequências.
Ele fugira da miséria do interior do seu país e viajara na ténue esperança de saltar de vez para além do muro da miséria. Arrastou consigo o carácter integro, quase rude, do aldeão, mas perante as suas obras ele sorria com enlevo .

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Viagens ao acaso

Jaime tinha orgulho quando pensava  que apesar de não saber expressar-se na língua gaulesa, tinha conseguido tirar a carta com grande empenho. Depois do trabalho sentava-se em frente da sua companheira e, com a sua ajuda, persistia em decorar os sinais e as regras que ele nem sempre entendia. A carta de condução era indispensável para que ele pudesse todos os anos levar a sua família à terra que o abandonara. A carta era o seu passaporte para as viagens que ele viria a fazer. Ao longo do ano seriam viagens circulares, como trilhos que o acaso os impelia a fazer.


Ao fim de semana a família entrava no carro e seguia o traçado da estrada que nunca os levaria muito longe. Nem sequer era a volta saloia pois quando Jaime pegava no volante não sabia onde iria parar, nunca tinha um destino concreto e isso era uma aventura vivida em família com mais ou menos apreensão. Todos tinham que partilhar a alegria de Jaime que mostrava os seus dotes de condutor mas não de explorador. Por vezes atravessavam caminhos rurais e por pouco não mergulhavam nos cursos de água que atravessavam os campos. Eram sustos controlados como afirmava Jaime: -" Faz parte da aventura!". O sentido de orientação de Jaime foi sempre o seu principal problema. Na grande odisseia anual chegou a conduzir a família de volta para casa, pensando ir a caminho de Portugal. Claro que nunca chegava a perder-se, segundo ele também os marinheiros seguiam as estrelas, acariciando as ondas até chegar a um destino, um pouco mais ao lado ou um nadinha mais à frente das previsões. Não tinha importância que  entrasse por Vilar Formoso ou por Badajoz na terra -mãe. O importante era chegar inteiro, o corpo amachucado e a alma a rejubilar depois da peregrinação de dois ou três dias.


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Do colégio para o mar

Catorze anos! A idade das dúvidas existenciais, idade da identificação no seio do grupo.Catorze anos! A idade dos amores, das paixões não correspondidas.Para Jaime os seus catorze anos foram a idade em que ele pela primeira vez afagou suavemente uma tábua . Estava no Colégio São João de Brito, onde fez um pouco de tudo até à idade de "ir às sortes". Decorreram seis anos e foi durante esse período que a verdadeira vocação de Jaime se revelou. Faria com a madeira o que o escultor faz com o mármore, ou o pintor faz com a tela, ou o escritor com a sua obra...despejaria nela toda a sua  alma,a sua vida e o seu engenho.
Foram seis anos de  alienação do corpo: pelo trabalho duro, pela constante pressão que sobre ele exerciam, a fim de direccionar a sua acção de modo sempre eficaz, sem direito a reclamações . Libertou a alma: pelos princípios que o impulsionavam a ver na criação a beleza divina e a reconhecer nos outros uma bondade que ele, até então, só reconhecera na sua mãe . Ganhava muito pouco (e sem direito a pedir aumento pois corria o risco de ser conotado como comunista!), mas tinha no Colégio um abrigo humilde : Uma cama, um armário uma mesa e uma cadeira preenchiam o seu espaço silencioso e monótono.Oficialmente o Colégio albergou os primeiros Jesuítas em 1947, aí foram recebidos uma dezena de alunos aproximadamente, era uma pequena família onde Jaime sentia que era também um elo na engrenagem.
Tinha o seu lugar na pequena comunidade elitista que podia ocupar os espaços deixados livres pela família. Só muito mais tarde o Colégio  albergaria mais de cinco centenas de almas mas por essa altura já Jaime partira por outros atalhos .
Aos vinte anos, o homem da beira baixa teve que deixar o Colégio e escolheu o mar por companheiro. Na Marinha revelou-se a fragilidade do corpo não só pela má nutrição da infância mas também porque a herança genética tem a sua palavra a dizer e nesse campo infelizmente a doce mãe Ermelinda deixou-lhe como legado não a sua doçura mas as mazelas físicas.
Jaime, na cama, esticou o corpo dorido , tentou passar o braço por cima do ombro desnudado de Licas e desastrado nos contactos físicos pousou a mão com violência sobre o cabelo de ouro.Acordou-a e por ali ficaram a fazer falar as memórias e os desejos, no espaço da noite e dos lençóis amachucados. Licas estava maravilhosa com o ventre rosa bem redondo, um novo membro da família vinha a caminho para se juntar aos três mais velhos.
-Vá não sejas marota sabes bem que agora não há perigo - disse Jaime - Havia que aproveitar!
A gravidez era uma certeza que poupava muitas aflições, incertezas e angustias numa época em que os métodos contraceptivos ainda não eram uma realidade para todos os casais, sobretudo os emigrantes, que achavam que aumentar a família era um sinal de cidadania, num país onde os casais já optavam por terem um ou dois filhos.

Não podemos ficar acorrentados para sempre

Um novo Verão estava à porta, Jaime tinha insónias e durante as longas noites acordado, antecipava o seu novo périplo em direcção a Portugal.A seu lado Licas dormia doce e, como sempre,  emanava do seu corpo, quente e embalado pela quietude da sua noite, a paz que o seu homem jamais sentira antes.Jaime soltou um pequeno queixume e logo Licas entreabriu os olhos em sobressalto e perguntou:
-Estás bem Jaime?
- Dorme estou a pensar na minha vida...
Seria ele capaz de parar na sua terra e mostrar aos seus filhos os cantos e recantos sempre frescos e verdes que ainda persistiam em falar-lhe através dos tempos?
Quando vinha de férias, tinha por hábito deslizar como num sonho, sobre a estrada sinuosa da serra que ligava o Fundão a Alpedrinha, passava a Capela do Anjo da Guarda, olhava à sua esquerda e via a sua vila lá em baixo...pesarosa pela  indiferença do seu filho pródigo. Nunca mais tornara a voltar, desde os seus trinta anos, a não ser para o funeral do seu pai Francisco que com mais de noventa anos ainda cortava as árvores do pomar. Foi ao cortar um ramo que ele caíra e partira uma perna que ele se recusou a tratar. Morreu longe de todos, na maior das aflições com a perna negra e morta.
"Talvez este ano eu pare e mostre de novo a minha terra aos pequenos , talvez eu tenha coragem para partilhar com eles, que estão mais crescidotes, o vazio que tenho quando recordo a infância". Pensou Jaime voltando-se com dificuldade na cama. A  bronquite-asmática que herdara de Ermelinda não o deixava respirar. Pensou na  mãe mas logo abandonou a sua imagem que já não era muito nítida e pensou no talho, nas carnes frias e inertes que ele fora obrigado a deixar.
Recordou os meses de recuperação do acidente  em que ele ficara pendurado durante alguns segundos, preso pelo músculo braquioradial . Pensou na casota do cão, que morrera esquelético,  onde  se abrigava das noites longas e solitárias. Adrião não podia continuar a dar guarida ao irmão, a não ser que ele fizesse um pequeno esforço financeiro...
A única divisão onde morava o irmão e a família não podia albergar Jaime que  preferia de longe aquele abrigo improvisado que um vizinho mais solidário lhe propusera. Jaime preferia a pequena casota ao ar pesado, com cheiro a corpos suados e cansados, a sopa de feijão e a urina nocturna,  que circulava na casa- abarracada.
Aquelas recordações levaram-no a pensar quão difícil tinha sido a sua jornada para chegar a ser Homem. O luar era sempre um bom companheiro e um excelente conselheiro e, apesar de estar debilitado, decidiu procurar um quarto alugado, digno dos seus catorze anos já feitos. Ainda lhe sobrara algum dinheiro que o patrão, pessoa com alguma humanidade e sentido de responsabilidade, lhe dera para poder sobreviver nos próximos meses.Via-se com o braço ao peito lavando a sua roupa e fazendo uma sopitas que ele inventava.
Sorriu ao recordar o grupo de amigos que o seguiam barulhentos calçada acima. Pediam-lhe amiúde que entrasse nas lojas do bairro para perguntar o preço de algum artigo. Jaime não era desprovido de esperteza mas era ainda ingénuo e não percebeu logo que se tratava de estratégias de grupo para sorripar alguma fruta, exposta em tabuleiros inclinados , no exterior das mercearias. Depressa largou os amigos da onça.
Sorriu na penumbra dos lençóis e chegou-se à sua companheira sempre tão disponível e pronta a cumprir os rituais do amor que os unia cada vez mais. Como num filme a preto e branco, passou em câmara lenta, o rapazinho de poupa que a brilhantina mantinha no lugar o dia inteiro. O chapéu de abas fora parar ao lixo quando duas cachopas, por acaso bem formosas o olharam e comentaram:
-  Que jeitoso... é pena ter chapéu!
A partir daquele dia Jaime nunca mais sairia de casa sem um pente na algibeira e amiúde era vê-lo passá-lo discretamente sobre o cabelo ondulado para compor a sua pequena "crista", o seu tufo de cabelo rebelde contemplando o seu reflexo numa montra qualquer.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

No regresso procuramos quem eramos no olhar do outro

Nas férias de Verão Licas  retorna à casa materna mas isso para Adelaide era pouco. Os elos estavam para sempre quebrados, ela preferia manter uma certa distância, para sofrer menos na dura realidade da partida. Durante as semanas da estadia da sua menina, a rotina era quebrada e isso incomodava-a um pouco.Sempre fora dona e senhora da sua casa, do seu espaço e do seu tempo.Sempre fora ela que tomara as grandes e as pequenas decisões.A consulta prévia a Alberto, o seu companheiro de sempre, era uma mera formalidade. Confrontado com a necessidade de empreender algo, Alberto, o marido de Adelaide e padrasto de Licas, tinha por hábito responder com um pequeno riso que era quase um soluço ou então ria com um riso fresco e sonoro como se fosse uma criança.O seu riso afastava qualquer vontade de confronto e resignada Adelaide nem insistia . Em vão esperou durante anos por respostas que confirmassem que as suas decisões tinham sido as mais acertadas. Nessa matéria a vida de Adelaide foi um deserto que ela teve que percorrer com o fardo das responsabilidades às costas.O companheiro seria sempre uma ténue sombra que nos momentos decisivos sorria dizendo:" Tudo o que fizeres eu aceito e apoio."
Adelaide construiu o seu pequeno universo como uma rainha sem coroa. Partilhava o seu espaço com dificuldade se a sua rotina e autoridade fossem postos em causa. Ela ansiava que os dias quentes de Agosto  lhe trouxessem Licas. Com beijos quentes entregava-se aos abraços efusivos da família que orgulhoso Jaime dizia ter trazido sã e salva após uma viagem de dias, vivida como uma peregrinação. Uma longa provação que podia durar dois ou três dias .O céu de Portugal podia não ser tão estrelado ou tão azul como o do país vizinho mas uma vez passada a fronteira de Vilar Formoso uma espécie de embriaguez apoderava-se de Jaime e da família. Era a saudade que se arrumava num canto da memória e era substituída pela alegria esfuziante de pisar o chão onde pela primeira vez abrimos os olhos e começamos a construir a nossa história individual.

Dois mundos um único fim...

Com os seus doze anos vividos aqui e agora, com a dor à flor da pele a viagem de Jaime foi uma fuga para longe do mal infligido estupidamente. Santa Apolónia pareceu-lhe vasta e assustadora. Procurou o seu irmão Adrião que entretanto imigrara para Lisboa. O olhar do seu irmão foi o que chamou a atenção do jovem: Olhos semicerrados, cansados da vida da cidade grande e doentia. O olhar azul e sonhador do montanhês tinha desaparecido.As oito horas da viagem tinham-lhe colado o estômago às costas. A despesa da viagem fora assegurada pelo Regedor da aldeia que com compaixão ajudou Jaime a fugir. Claro que o dinheiro emprestado, a seu tempo, seria cobrado a Francisco que conseguiu livrar-se a uma ordem de prisão, por mero respeito pela família. usara de grande violência contra um menor, o que podia sem dúvida ser crime, mas fazia parte da cultura da época.
A beleza da serra foi substituída pela degradação dos bairros periféricos de Lisboa. A viagem até ao bairro do Cruzeiro foi mais um suplício para Jaime que desde a partida de Alpedrinha nada tinha comido . Passou pela Baixa lisboeta e pela primeira vez viu um eléctrico amarelo que deslizava ruidosamente pelos meandros das colinas brancas, sob o sol tímido da madrugada. Enjoado, baloiçava ao sabor dos movimentos do transporte eléctrico. Deixou para trás o Calvário e pensou nas ruelas de Alpedrinha, reviu o "seu"  Calvário, perto da Igreja Matriz e ficou em pânico.A última etapa foi feita a pé.
A passos largos Adrião aproximou-se do Cruzeiro onde barracas encavalitadas cresciam, no Alto da Ajuda, ali mesmo ao lado do opulente Palácio neoclássico do século XIX. Ironia social, o encontro destes dois mundos tão distintos e no fundo um só.

Paredes de madeira e lata bem perto da residência oficial que recebera a família real, até à implantação da república em 1910,  decorada com aparatosas  tapeçarias de Bruxelas e pinturas alegóricas. Nas barracas nasciam e morriam pobres, mantidos na ignorância, desprezados pela sociedade obscurantista e elitista. No Palácio num passado bem recente, faustosas festas foram organizadas para os filhos D. Carlos e D. Afonso pela rainha D. Maria Pia ,sempre à custa do suor, do sangue e da própria vida de todas as mãos que laboram, contudo no final  só o pó ou a memória restam... tanto  dos ricos como dos pobres.

Chegaram ao número cento e trinta e um da Travessa do cruzeiro. Entraram num pátio antigo, um pátio do século XVIII onde as habitações degradadas abrigavam famílias de operários que desde os anos trinta, chegavam em busca de melhores condições de vida.
As paredes feitas de tijolo de burro, mostravam pouca manutenção por parte dos proprietários que viviam das rendas cobradas aos inquilinos que íam esvaziando o interior do país.
A vida no Pátio era como um trecho de uma história de encantar, onde os ódios, as paixões, os ciúmes,as alegrias e as tristezas eram vividos num espaço restrito e mágico. As querelas entre os miúdos depressa se transformavam em brigas de adultos.
Jaime partilhou este espaço fechado como uma ilha , durante pouco tempo. O irmão Adrião começou a exigir mais dinheiro para o orçamento familiar. O jovem preferiu procurar um quartito na Boa Hora para se sentir dono da sua vida. Até o conseguir qualquer buraco que o abrigasse da noite seria bem-vindo. 







quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A fuga

Jaime viajou como "turista" desesperado. Nos anos setenta, já próximo da Revolução dos Cravos, ainda era a forma possível para chegar a França, sem ter que passar pelas provações daqueles "que davam o salto" através de montes e vales,riachos e aldeias perdidas .
Com o passaporte de turista comprou um bilhete de "Ida" no Sul Expresso. Ao partir, rolou uma lágrima na garganta, um soluço no coração mas fez um "manguito" ao destino  que lhe negava um projecto de vida em terras de Portugal. Contava com a solidariedade de familiares e assim aconteceu. Partir também pode implicar despojar-se de pruridos, alimentar a humildade e receber de alma vazia e cabeça limpa de vãos orgulhos, tudo o que nos queiram oferecer.
Não tinha Licas a seu lado, sentia-se só e desprotegido. Organizou o mais depressa que pôde a sua nova vida de forma a providenciar a vinda da sua companheira.Em Paris esperá-la-ia com a saudade repleta de queixumes que só ela ouvia e entendia com paciência. Os filhos ficariam para trás, em casa da matriarca, Adelaide, protectora da família.
Durante oito meses Adelaide viveu as angústias da penúria. O agregado familiar aumentara de um dia para o outro com os três filhos da Licas sua filha. Eram três crianças que nunca foram ouvidas nem tomaram parte na decisão familiar. Aliás nem a própria Licas fizera parte do plano. Jaime era perito em  quebrar os laços com a vida. Ariana,Isaac e Alfena viram-se como órfãos temporários, entregues aos cuidados da avó que jamais se lamentou ao ver a casa que se sujava mais, da roupa que enchia o tanque. As suas mão encarquilhadas e doridas eram a única testemunha do quanto ela trabalhara duramente.
Tanque cheios de água gelada que Adelaide chegou a ir buscar à fonte que jorrava na mata da Enxurrada , antes da chegada da água canalizada.

Aos quilos de roupa que Adelaide lavava para os soldados, juntavam-se agora as roupitas de mais três pequenos seres deixados para trás, ao sabor dos dias frios da margem sul.
Ariana gostava de acompanhar a avó que, de trouxa à cabeça, se dirigia decidida mas humilde ao soldado de plantão. Um a um os soldados eram chamados. vinham a correr da camarata ou da Messe e recebiam a roupa branca e cheirosa. A sujidade eras lavada sabe Deus com que esforço pelas mãos que se retorciam, pelos dedos que se iam deformando para ganhar mais alguns tostões.
O pedido de Licas apanhou Adelaide de surpresa. Não protestou...deixou-a ir atrás do sonho do seu homem. Depois da partida ouviam-na lamuriar: "Perdi a minha menina... quando voltar estarei morta!"

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A impotência em ser feliz pode vir a tornar-se numa lúcida loucura

José Maria regressou da mina triste e acabrunhado. Era o mais esbelto dos irmãos, herdara do pai os olhos de um azul transparente e da mãe a pele branca e a delicada saúde.Ao ver partir o Adrião não hesitou e com o pouco que tinha partiu rumo ao seu sonho de enriquecer ou pelo menos viver independente com o seu pedaço de terra.
Percorreu, a pé, as veredas, os carreiros e os pinhais que levavam à Serra desventrada pela exploração do volfrâmio.Tinham sido belas ,no século XIX, as suas encostas, com frondosos pinheiros, urzes e medronheiros. Agora abria sem reservas o seu ventre fecundo  e doentio a todos os que acreditavam com uma certa ingenuidade que nascer pobre em Portugal não é impeditivo de estar a um passo do sucesso se o corpo não se recusar ao trabalho.Caminhara durante dias, semanas, atravessou campos salpicados de pedras negras que pareciam obra humana. Era o destino que o empurrava para uma viagem que seria a sua provação, a sua cruz grande como o peso da emergente alienação mental.
Rastejou nos sombrios e baixos túneis da mina . Ganhou algum dinheiro mas a febre levou a melhor sobre a sua capacidade de luta. Regressou a Alpedrinha doente, derrubado pela fraqueza do espírito e pelo peso crescente da ausência eterna da mãe.

Ninguém o quis, ou soube, ouvir e a febre transformou-se em silêncio eterno.Até morrer, abandonado pela família, jamais pronunciou uma palavra, nem quando Jaime tentou tranquilizar-se com o passado e foi visitar o irmão, conseguiu ouvir a sua voz.

A descida aos infernos da Panasqueira

O espírito pastoral desta gente das Beiras acentua uma comovente maneira de mergulhar nas recordações. Jaime sempre abraçado à retorcida e velha figueira, mergulha mais fundo e vê agora, na retina da memória, a sua figurinha vestida de escuro,a cor privilegiada do Portugal daqueles tempos. Revia-se frágil, desprotegido, as socas de madeira sem solas, acenando triste como se fosse iniciar uma longa viagem. tinha então sete anos e era chegada a hora de conhecer a Cartilha Maternal.Foi curto o encontro com as letras , na serra ele já começava a fazer falta.O conhecimento académico não tinha sentido para além de escrever o seu nome e conhecer os números que  fariam falta para desenrascar em algum negócio, porém mesmo aqueles que nunca tinham provado a dor da palmatória e nunca se tinham sentado na dureza da carteira nem molhado a pena no tinteiro de porcelana, sabiam por transmissão oral e quase intuição como nunca se deixar enganar por um feirão menos honesto.
Na escola Jaime esperava impaciente pelo recreio, a sineta tilintava então Jaime desembrulhava o seu saco de serapilheira e daí tirava o pão e os figos, único repasto a que tinha direito. Comia à pressa, as brincadeiras esperavam!
Sem distinção de classes Jaime divertia-se com os filhos do Senhor doutor Feliciano Matos. Para alguma coisa devia servir o esforço que Ermelinda fazia para manter os seus filhos remendados e limpos.Roupas velhas que ela transformava, cosia e recosia. Roupa perfumada sem perfuma, barrelas de cinza que depois de uma noite ao luar eram mergulhadas no ribeiro das Beiradas, eram esfregadas com o velho sabão azul e branco e roupas velhas eram transformadas em fatos perfumados, principescos!
Depois da escola regressava o pequeno, o estômago apertado pela fome mal enganada pelos figos lampos.Atravessava de novo o pinhal e distraía-se a perseguir as efémeras borboletas, que ora pousavam nas giestas ora borboleteavam à frente do seu narizito.Era um passar pela vida sem os sobressaltos dos pobres da cidade, obrigados a mendigar na Paróquia do bairro. No campo, mantinha-se a dignidade , bastava madrugar, ter uma prole numerosa para ajudar na lavoura, ser honesto e respeitar os senhores da terra e o Senhor do Alto.
Por aquela altura já a família de Jaime se dispersara. Alguns, mais velhos, tinham partido para procurar trabalho nas minas da Panasqueira. Poucos anos antes da segunda guerra mundial, a procura de volfrâmio já era grande. A Europa e sobretudo a Alemanha preparavam-se para o confronto e a industria de armamento desenvolvia-se. Este minério era utilizado como endurecedor de ligas metálicas.
Os jovens partiam de Alpedrinha, rumo ao Fundão, depois seguiam na direcção de Silvares. As doces e verdejantes encostas da Gardunha tinham ficado para trás. Passado Silvares galgavam as encostas até ao rio Zêzere. Aí, petrificada a paisagem natural era absorvida pela paisagem humanizada: as escombreiras provocavam um certo mal estar nestes homens que acarinhavam a terra.
O José Maria fora o primeiro, logo lhe seguiram o exemplo o Alexandre e o Adrião que tivera a sorte de acabar a quarta classe.
As minas eram o inferno debaixo dos pés. Eram trabalhos e vidas difíceis que transformaram a identidade de várias gerações que passariam a ter como horizonte uma actividade proletarizada e dos sonhos pacatos ao sabor das colheitas, passaram aos sonhos intranquilos, marcados nas notas de conto.
Muitos foram os que graças à sua robusta compleição de homens da lavoura, conseguiram uma alucinada ascensão económica que por vezes frisava o patético. Não apostando na formação, na alfabetização destes novos operários, comprometia-se a vida comunitária que não era segura devido a rixas constantes, a roubos e mesmo prostituição.
 Uma temporada nestes infernos subterrâneos para ganhar o dinheiro que permitisse comprar uma parelha de vacas dava direito àqueles que a sorte não bafejava, a umas  febres que, de tão fortes que eram, faziam perder em remédios tudo o que fora  ganho.Tal aconteceu a José Maria que nunca mais se recompôs  e acabou internado num hospício enredado nas delirantes memórias que o levaram à loucura que mais não seria que uma profunda depressão.
A loucura  na Idade Média

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A verdadeira viagem sempre ficará por fazer

Além a figueira da infância, aqui o pinheiro que também tinha feito a sua viagem pelo tempo e tinha agora a aspereza enrugada que os anos marcaram.Tal como nesse tronco o tempo selara a vida deste homem com cunho duro e pesado.A romagem de Jaime tinha que lhe avivar as memórias e dar novo sentido às imagens fugazes que revolteavam quais fantasmas.A felicidade a que todos ansiamos não pode depender da luta constante entre o individuo e a sociedade que tende a ser injusta e desequilibrada. Encontrar o nosso lugar no mundo ou nosso pequeno jardim não pode depender da desforra  do   presente sobre o passado.
Jaime queria acertar contas com a vida onde o vazio de amor na infância o presenteou com uma fraqueza do corpo que eram o espelho vivo das feridas da alma. Jaime sentiu a rugosa casca roçar as mãos calosas mas bonitas e abriu os olhos à claridade inebriante da tarde.



Nunca sairia daquele lugar de alma leve e solta. Tal como o seu pai Francisco ele temia já a velhice solitária e desprezível. Seria ele também acometido por uma ânsia desmesurada de procriar, julgando assim fugir à solidão da velhice que ele tanto temia ? Naquela viagem dois rebentos acompanharam-no : Ariana e Isaac. Na beleza sólida da serra onde alpendres e escadas de pedra se debruçam sobre as terras cultivadas, Jaime imbuído pela paz  daquele lugar idílico, inspirado pela energia da serra, aumentou a sua prole. Desta viagem às origens nasceria Alfena.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

As laranjas que mudaram o rumo da vida

Jaime desejava ultrapassar o impasse que era a sua existência...mas como?Sem sonhos bem definidos não  conseguimos ir além da encruzilhada onde ficamos à espera que a mudança chegue nas asas do imprevisto.
Jaime tinha agora treze anos, franzinos e rebeldes. Era um  adolescente habituado às agruras das noites passadas ao relento. Francisco, o seu irmão não era a pessoa mais indicada para o orientar e proteger dos primeiros desencontros com a vida. Ele era um homem rude, ignorante e egoísta. Estava seco o seu coração, como secas eram as terras que circundavam as Lajes.
Os sentimentos altruístas de Jaime ainda habitavam o seu coração o que o levou, certo dia, a apanhar do chão umas laranjas que, de tão maduras, não resistiram ao vento "Marçagão" que naquela Primavera soprara dos montes com mais força. Eram belas laranjas, rugosas que deixavam adivinhar, pelo peso o seu elevado teor de sumo. Este fruto doce, rico em vitamina C, fazia ,parte da alimentação que entre o Outono e a Primavera fornecia uma boa fonte de ácido cítrico especialmente aconselhado para a saúde cardiovascular. O acto de apanhar as laranjas, tinha um propósito: iriam ser oferecidas a um dos irmãos que estava de partida.Esta oferta iria ser o marco que transformaria a vida de Jaime.Nunca sabemos o momento certo que nos leva a subir o degrau, rumo a uma nova vida.
Ao descobrir a oferta feita a João, Francisco agrediu-o selvaticamente. A cabeça a latejar de medo e de raiva, o sangue a escorrer da fronte, ofegante, o miúdo procurou ajuda e ela chegou pelas mãos do Senhor Regedor José Correia.
Foi num comboio muito semelhante  ao que o trouxe de volta à sua terra , três décadas depois, que ele partiu, tendo como único tesouro os cento e cinquenta escudos dados pelo Regedor. Ao saber da ocorrência, o seu pai, num derradeiro gesto de simpatia, fez-lhe companhia até Castelo Branco. Aí deixou-o sozinho, foi então que Jaime fechou para sempre a porta da sua vida de criança- pastor mas ao fechar essa porta sem pedir contas ao passado ele nunca viria a ser um homem em paz com o mundo porque os seus laços de afecto seriam sempre remendos de desamor e desconfiança.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Mimos da vingança

As humilhações que sentira teriam como compensação as travessuras infligidas aos sobrinhos que vagueavam pelos campos e vinhedos.Gostavam de depenicar os cachos, como passarinhos, saltitavam pelos vinhais. Se a fome ou a sede apertavam, os cachos ficavam então mais pobres e rapados.
Jaime desesperado, sabia que seria responsabilizado e castigado.Com prazer vingativo, envolvia os bagos de uva madura com excrementos . Eram mimos de criança revoltada. Maliciosas maldades sem consequências dramáticas.Tio e sobrinhos tinham quase a mesma idade. Ao primeiro já tinham roubado a infância aos segundos também lhes negariam um futuro promissor.Eram crianças descalças, o monco permanente dava-lhes um aspecto sujo e desmazelado.

O relógio de bolso

A viagem de Jaime reavivou-lhe a memória, ao ponto de conseguir recordar-se de um pequeno objecto que durante algum tempo ele cobiçou. Era o relógio de bolso do Chico (seu irmão). Simples relógio de bolso que para Jaime era símbolo de um estatuto mais importante, riqueza de homem feito, responsável pelo tempo que até então só o sol tinha servido como guia. Eram acanhados sonhos de menino que já tinha as suas histórias para contar.O irmão sabia desse seu desejo e mais uma vez lhe fez a promessa de um dia lho oferecer.Era uma forma rápida de calar o pedido, reiterado vezes sem conta. O peito do Jaime encheu-se de vaidade e de alegria ao ouvir esta promessa que seria a sua primeira recompensa material pelos serviços de pastor.
O relógio, pendurado na parede esperou, mudo, sem corda, pelo futuro dono.Mas...porquê esperar pelos  dois anos de trabalho, sem uma gratificação,um carinho, um sorriso ou uma refeição mais copiosa em dia de festa? A impaciência crescia à medida que o tempo passava.
Um dia Jaime decidiu-se.Pegou no relógio de bolso e sorrateiro partiu com o gado para os lameiros onde o pasto era mais rico.
Partiu mais rico, mais feliz com o tão cobiçado guardião do tempo.Finalmente não precisaria de olhar para o sol na sua curva descendente para saber se eram horas de recolher. Aquele companheiro falaria com ele, na solidão dos campos de malvas que a sua mãe tantas vezes utilizara para combater constipações e outros achaques.
Enquanto percorria as leiras (onde o feijão frade crescia discreto e branco, nas vagens), ansioso apalpava o colete...ele lá estava, o pequeno relógio de algibeira, com corrente e tudo!
O azedo carácter do irmão deitou cedo por terra este parco prazer de posse.Certo dia ao fugir da sua fúria intempestiva, Jaime perdeu o seu tesouro. Aflito, tentando escapar às bordoadas que voavam sobre ele,saltou lesto um muro que se erguia nas Beiradas. O relógio saltou do pequeno bolso. Durante meses o objecto cobiçado ficou enterrado no meio dos feijoeiros.Acidentalmente Jaime encontrou-o mas não voltou a servir-lhe de guia do tempo.O relógio jamais seria seu e regressou ao prego na parede.
Aprendeu à sua custa a não desejar o alheio , a não esperar por promessas que podem sustentar a inércia da nossa vontade. Nada na vida lhe seria oferecido "de bandeja" por isso desenvolveu habilidades que mais tarde facilitariam a sua vida.Seria um exímio artesão , um artista na sua profissão.Já adulto, quando pegava religiosamente nos seus relógios de colecção, sorria com malícia, como se se tratasse de uma pequena vingança pelas humilhações infligidas.

Sonhar timidamente,

Jaime partia agora sozinho para a serra. Rezava para que os lobos não lhe tresmalhassem o gado que na sua inocente credulidade pensava partilhar com o irmão Francisco que lhe propusera sociedade.Quase a troco de nada trabalhava com mais prazer, afinco e esperança no futuro que já podia desenhar a cores. Havia noites em que era acordado pelos  chocalhos aflitos depois de ter sucumbido ao cansaço e ao frio. Saía da cabana, ou do abrigo, e escutava a noite, preparado para enfrentar as urzes e os silvados que lhe rasgavam o rosto quando mergulhava na serra sem luar. O rebanho, o seu pé-de-meia, fugia espavorido, à frente de algum lobo esfomeado.Tinham-lhe há muito roubado os medos da infância e partia tiritante e valente. A busca, por vezes, durava toda a noite. O castigo corporal já ele tinha como certo mas que diabo... não seria um predador que o faria desistir do seu negócio. Pela manhã encontrava o rebanho mais pobre de um cordeiro.Mas neste negócio familiar só um sairia a ganhar, a promessa de sociedade, entre os irmãos , nunca viria a ser cumprida.Este homenzinho, ainda à sombra da infância, foi aprendendo, sem o saber ainda, que os sonhos quando são tímidos raramente se tornam realidade.Um sopro de sonho pode transformar a vida numa busca frustrante de algo que nunca terá forma e nos deixa em permanente insatisfação.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O seio da Mulher

A mãe Ermelinda estava de novo de esperanças. Uma menina vinha a caminho e o nome já estava escolhido: Seria Benvinda a criança que acabaria, meses mais tarde, por debilitar ainda mais esta mulher com o futuro comprometido.
Jaime, ainda carente do regaço materno lançava um olhar ladino ao ver a mãe Ermelinda amamentar o novo rebento. Então  aproximava-se timidamente, na mão um pequeno escabelo tosco e carunchoso.


A mãe fazia-lhe um sinal de assentimento e era vê-lo, sentado em frente deste maravilhoso quadro vivo, tentando chegar ao seio redondo. Deliciado sorvia o néctar da fonte santa desta mulher!
 Jaime sorriu e estremeceu com ternura. Abriu os olhos, o tempo inexorável tinha-lhe roubado o bem precioso que era o amor incondicional de sua mãe. O Ameal ficaria para sempre vazio e sem sentido após a sua morte prematura. O pai mal esperou que findasse o período do nojo para partir com outra companheira, deixando os mais novos entregues ao irmão mais velho Francisco  que casara com a filha do patrão: Maria, moça pouco bafejada pela beleza mas valente como só o sabem ser as mulheres na alucinada e exaltada luta pela conservação e perpetuação da espécie. Maria e Francisco seriam a partir de então os infernais protectores da família já marcada pela desditosa perda de Ermelinda.
Jaime passou a viver numa verdadeira escravatura. Trabalhava sem direito a salário, sem direito a consolar o estômago ou ao conforto quente do lar.O luar passou a ser o seu tecto, a serra a sua morada permanente, o rebanho a sua nova família!
Em casa os armários eram fechados a sete chaves por isso Jaime pôs para trás os valores tão piamente transmitidos pelos pais e viu-se obrigado a assaltar as figueiras vizinhas para acalmar a dor que lhe apertava as entranhas. Os figos passaram a ser um inocente e necessário pecado.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

As plantas da infância

Jaime contornou o tronco da velha figueira, sentia-a na pele, os seus sentidos pareciam estar mais apurados, quase sentia a seiva que após tantos anos de ausência continuava a circular e a transformar o ar puro da serrania  em ar ainda mais puro. Jaime sentia-se mais velho e frágil, a figueira mais majestosa e colossal continuava ali como se estivesse à espera do seu regresso.
Afinal Jaime não encontrara a paz e o conforto naquela viagem. Sentia-se desfasado daqueles lugares que ele tão bem conhecia mas com os quais ele já não se identificava. Só a figueira espelhava o seu penoso trilho pela vida, tinha sido a sua sombra, por vezes o seu sustento, quando o corpo elanguescido  depois de descer a serra se regalava com o figo lampo,branco e sumarento. Tinha sido o seu mundo secreto onde se escondia dos irmãos ou do pai castigador.


A imagem do pai Francisco surgiu num lampejo quase desesperado. As alvoradas tinham assistido às suas jornadas com rumo à serra na companhia do pai.A escola já pertencia ao passado, era tempo de provar os frios intensos, o medo ancestral do Lobo que era presença constante nos sonhos em sobressalto,tendo por única protecção peles de ovelha e giestas, aquecidos pelo gado, no meio do nada e de tanta grandeza.Não havia espaço para a poesia mas na memória sempre ficam os sons e os odores estonteantes dos campos.Sons de pífaros toscamente executados enquanto deixavam o tempo escoar pela serra. Sons de notas dolorosas que o vento, carpindo pelas mimosas,levava para bem longe ecoando pelas Beiradas, cobertas pelo hibisco, pela giesta e a carqueja que avivava  os montados de pinheiros bravos.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A força do cálice fecundo

A vida decorria sem sobressaltos para esta família da Beira Baixa, movida pela vontade,  de sobreviver às agruras da miséria rural. Miséria social e cultural que deixava nítidas feridas no coração e no modo como ao longo da vida expressariam os sentimentos. Corações solitários mas transbordantes de amor nunca revelado. Violências domésticas que a frágil Ermelinda  tentava em vão controlar. Quantas vezes a sua carne provava a mão progenitora que, impiedosa, castigava os filhos. Como boa portuguesa aceitava tolerante estas marcas de despotismo, de temperamental desejo de comando. O mundo de Ermelinda tinha como limite a sua descendência e a sua débil saúde.Atormentada pelas sucessivas crises de bronquite e pelos partos numerosos, esta mulher era a grandeza decadente personificada. Grandeza na sua passiva aceitação do sofrimento, quando qual leoa se lançava entre os filhos e o braço castigador.Decadência na forma fatalista de aceitar esse sofrimento, sem um única vez sentir o desejo de gritar o seu protesto, sem sonhos de mudança, presa no seu nicho de mulher mãe, mulher trabalhadora, mulher crente e temente a Deus...

Prisioneiro da serra



Se o tempo piorava e o céu desabava sobre a terra, não havia tempo para regressar a salvo ao Ameal. Um sobreiro  ou uma cabana de giesta serviriam de abrigo ao pastor. A cadela, companheira fiel e o gado ali ficavam, os dorsos frementes oferecidos ao vento, ao frio e por vezes à neve. A vida pairava expectante, os segundos eram o ritmo do coração apertado pelo pavor, os minutos eram o cambalear das cabeças molhadas dos animais...as horas eram o drama das agruras e dificuldades da vida  visitados e revisitados pela mente meio adormecida. Estes retiros forçados da vida cultivavam caracteres sofridos e melancólicos, propensos a um lirismo exacerbado e apaixonado.A flauta de cana fazia-se ouvir pela serra como um grito ou um suspiro de dor.








A vingança serve-se com leite

Aos nove anos a escola ficara para trás há muito! Os rebanhos eram a única companhia de Jaime. Ainda o sol não afagava as lojas que abrigavam os animais felpudos e já o garoto reunia o gado para se pôr a caminho, rumo ao Vale da Cabra,percorria carreiros ladeados por manchas de giesta, mas lá bem alto frias e negras pedras pareciam serem obra do homem. Eram polidas, lisas e brilhavam ao sol nascente.Sempre atento aos fugitivos e mais afoitos cabrititos, o pequeno pastor atravessava o campo, passando rente à propriedade do "vinte e cinco", alcunha do vizinho mais próximo.Este vizinho zelava religiosamente pelo que era seu, mas raposa velha contornava toda a moral que dominava as relações no mundo rural e subtilizava descaradamente o mato do Francisco Ferreira.Claro que em defesa dos bons costumes um dia o "vinte e cinco" foi agredido selvaticamente com uma lata de leite. Não ganhou para o susto e aprendeu a lição.

O Homem Beirão

A aparente pacatez da vida campesina,molda o homem numa fria forma de pessimismo, de coragem, de pragmatismo imediato que não permite ter da vida uma visão de projecto, senão um "salve-se quem puder" que fortalece o carácter mas não faz de cada indivíduo um ser excepcional. Tudo gira em torno da tradição, da imitação de gestos, da aprendizagem servil de novas ideias, raramente postas em causa numa atitude passive e condescendente. Tudo acontece por obra do destino, de um fatalismo nato, o beirão acaba por tudo aceitar de bom ou de mau, como se fora uma provação, uma cruz grande como o universo, cujo peso só cada um pode avaliar.
Jaime não fugiria a esta vibrante e apaixonada visão da vida, que pode levar-nos à louca ideia de que no mundo o centro somos nós. Tudo é amor mas pode ser ódio, a razão ocupa pouco espaço nestas ligações afectivas ingénuas e perigosas.

Agora que estamos na UE!



A agricultura em Portugal não era uma ciência exacta mas todos conheciam segredos, artes e artimanhas transmitidos de geração em geração e a terra ciclicamente era fecundada com respeito e esforço. A experiência que o homem tanto defendeu no Renascimento, como forma de saber e aumentar o conhecimento era, no trabalho da terra, uma realidade incontestável, embrenhada nas rotinas do pragmatismo.
Também o  espírito pastoral desta boa gente das Beiras, acentua  uma comovente e peculiar maneira de mergulhar na memória. Jaime abraçado à retorcida figueira , vê na retina da mente, a sua figurinha vestida de escuro, a cor de eleição  do português dessa época cinzenta.Revia-se frágil, desprotegido, as socas de madeira quase sem solas, acenando triste como se fosse iniciar uma longa viagem...mas não! Ele tinha sete anos , era tempo de passar os olhos pela cartilha . Ele sabia que fazia falta na quinta, a despeito da sua tenra idade pois já ajudava a recolher o gado atrás da cadela Líria. Sabia...ou talvez não que a sua escolaridade não iria prolongar-se, porque seria ele um privilegiado? Depois das primeiras letras e dos primeiros números a própria vida ensinava a conhecer a história das gentes, do povo e sobretudo a ter bom-senso e cautela.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Terras de bravos que pelejavam por uma amante ora exigente ora plácida ao sabor das estações

As cabras da família por vezes causavam desavenças com os vizinhos.Bastava vaguear o olhar pela serra e lá iam elas aos saltitos mordiscando os rebentos dos pinheiros da Dona Auzenda.Valia a pena arriscar e, de vez em quando, olhar a beleza sólida, real e imponente das encostas salpicadas de uma miríade de cores de Primavera ou simplesmente cobertas de lençóis flutuantes e húmidos do Outono.
O respeito pela propriedade era um ponto de honra, para quem pouco ou nada tinha de seu. A fertilidade da terra era arrendada, as quintas e as casas também o eram, em troca de pouco ou de muito.Por muito pouco recorriam à violência, por pouco chegavam a matar! Jaime bem se lembrava da história mil vezes contada e outras tantas fantasiada que enlutou uma família de Vale Prazeres...tudo por causa de uma galinha.
A terra era uma amante que pedia sem cessar amor,esforço e justiça. Só o gado podia por ela vaguear mas mediante regras impostas pelos homens. Nela podiam despejar as suas entranhas e assim enriqueciam-na em troca de alimento.Nos "cancelos" praticava-se uma espécie de troca: o pasto pelo estrume.Tudo era economia, tudo tinha de ser gerido com zelo e respeito. Nada era desperdiçado. As leis da natureza eram imutáveis, rígidas para que nada se perdesse.

Perante Deus não somos todos iguais?

Na Igreja Paroquial, também as diferenças sociais eram mantidas num nevoeiro devoto.Os mais abastados podiam chegar em cima da hora da celebração, os seus lugares não estariam ocupados pela plebe.
Homens atrás, mulheres à frente...os rituais tinham destas coisas!Que efémera vaidade se o fio que separa a vida da morte, não nos compete a nós cortá-lo... porquê alimentar tantas separações e diferenças?Poderá o Altíssimo vislumbrar na sua extrema bondade que a esmola do pobre é por vezes a sua maior riqueza e a do rico é supérflua?
Findo o ofício, a família  de Jaime retomava o caminho para casa. O gado não podia esperar, a ordenha tinha de ser feita mesmo em dia Santo.
No Ameal ficava sempre alguém a cuidar das ovelhas de das cabras.